# Atraso de fase do sono em adultos neurodivergentes: o que a pesquisa mede

> Dormir tarde e acordar tarde não é falta de disciplina: em parte das pessoas o horário de sono está deslocado em relação ao que a rotina exige, e não encurtado. O que os estudos encontram no TDAH, o que segue incerto no autismo adulto e por que a recomendação genérica de deitar mais cedo não resolve.

**Canonical:** https://diegotinoco.com.br/blog/atraso-de-fase-sono-neurodivergencia
**Autor:** Dr. Diego Tinoco — Médico Psiquiatra (CRM-MG 58241, RQE 37921)
**Publicado em:** 2026-10-16
**Revisado em:** 2026-10-16

---
## Quando o sono não está faltando, está deslocado

Há uma diferença entre não conseguir dormir e não conseguir dormir *naquela hora*. Quem vive a segunda situação costuma receber as recomendações feitas para a primeira, e repetir que elas não funcionam. O padrão, num exemplo hipotético: a pessoa deita às 23h e fica acordada até as 2h; se o dia seguinte estiver livre, dorme até as 10h e acorda descansada. O sono existe, tem duração e qualidade — só não acontece no horário que o trabalho, a faculdade ou a rotina da casa exigem.

Essa configuração tem nome. O DSM-5-TR descreve, entre os transtornos do ritmo circadiano sono-vigília, o tipo de fase atrasada: um horário de sono persistentemente deslocado para mais tarde do que o exigido pelas demandas de trabalho ou de estudo, com dificuldade para iniciar o sono no horário desejado e para acordar na hora necessária. O manual registra que, quando a pessoa pode seguir o próprio horário, o sono tende a ser adequado em duração e em qualidade.[5](#ref5)

Em adultos neurodivergentes esse padrão aparece com frequência nos relatos e, em parte da pesquisa, também nos instrumentos de medida. O que segue é o que os estudos encontram — e, em dois pontos importantes, o que eles não encontram.

Esquema ilustrativo: no atraso de fase o bloco de sono não encurta, ele se desloca — e o despertador cai no meio dele.

## No TDAH, a evidência é mais consistente

A revisão sistemática mais abrangente sobre o tema reuniu 62 estudos, com um total de 4.462 pacientes com TDAH, para avaliar o que se sabe sobre função circadiana, cronotipo e cronoterapia no transtorno.[1](#ref1) Ela encontra evidência consistente de que o TDAH se associa a cronotipo mais vespertino e a atraso de marcadores de fase circadiana — entre eles o início da secreção de melatonina sob luz fraca e o início do sono.[1](#ref1) Vale dizer de que revisão se trata: ela reúne estudos com crianças e com adultos, sem separar as faixas de idade.[1](#ref1)

Para adultos especificamente, um estudo holandês mediu o ritmo de perto. Foram 40 adultos com TDAH — 31 deles relatando insônia de início do sono —, comparados a controles pareados, com diário de sono e actigrafia por uma semana e coleta de melatonina salivar em uma noite.[2](#ref2) Os adultos com TDAH *e* insônia inicial mostraram início e fim do período de sono deslocados para mais tarde, e início de melatonina atrasado, na comparação com os adultos com TDAH que não relatavam essa insônia.[2](#ref2)

O recorte é o detalhe que mais se perde quando o assunto circula: o achado está no subgrupo. Os autores descrevem desvios de ritmo diurno na vida cotidiana da maioria dos adultos com TDAH *que têm* insônia de início do sono, e encerram sugerindo que os benefícios potenciais de medidas para melhorar o ritmo sejam avaliados — não que já tenham sido demonstrados ali.[2](#ref2) A amostra é pequena e de um único centro. Nada disso autoriza dizer que todo adulto com TDAH tenha o relógio deslocado, nem que o deslocamento seja a causa do TDAH.[1](#ref1) O texto sobre [sono no TDAH e no autismo adulto](/blog/sono-tdah-autismo-adultos-neurodivergencia) percorre as outras camadas que entram nessa conta.

## No autismo adulto, dois estudos e dois achados diferentes

Aqui a literatura é mais fina, e vale apresentá-la como ela está. Um grupo australiano estudou 36 adultos autistas sem deficiência intelectual, com questionários, diário de sono e actigrafia por 14 dias, comparando-os a controles pareados por idade e sexo.[3](#ref3) Uma proporção maior de adultos autistas preencheu critérios para um transtorno do ritmo circadiano sono-vigília do que os controles, e o de fase atrasada foi particularmente comum no grupo autista.[3](#ref3)

O mesmo grupo foi medir, em outro estudo, o marcador biológico por trás disso: o início da secreção de melatonina sob luz fraca, em 28 adultos autistas — 16 sem medicação para outros diagnósticos e 12 em uso de medicação por ansiedade e/ou depressão — e 32 controles.[4](#ref4) O horário desse início **não diferiu** entre os grupos. Adiantamentos e atrasos apareceram em perfis individuais, e não como característica do grupo.[4](#ref4)

As duas coisas convivem, e a diferença entre elas é instrutiva. O primeiro estudo mediu comportamento de sono — quando a pessoa efetivamente dormiu e acordou, ao longo de duas semanas. O segundo mediu um marcador fisiológico de fase. E os próprios autores do estudo de comportamento registram que fatores como a situação de trabalho e a coocorrência de ansiedade e depressão parecem influenciar o padrão de sono desses adultos.[3](#ref3) Ou seja: o horário em que alguém dorme não se lê como saída direta do relógio biológico. Em adultos autistas, o que a evidência disponível sustenta é variação individual, e não um perfil único de grupo.[4](#ref4)

## Por que a recomendação genérica não resolve

"Durma mais cedo" pressupõe que o horário de deitar seja a variável livre. Quando a fase está deslocada, deitar mais cedo adianta o momento de apagar a luz, não o momento em que o sono chega — e o intervalo entre os dois é vivido acordado, muitas vezes com a cabeça em plena atividade. Quem acumula semanas assim costuma dormir até mais tarde quando o fim de semana chega, e aí o horário dos dias livres e o dos dias de trabalho se afastam ainda mais um do outro.

Há um ponto de contexto que a pesquisa registra e que fica fora do quarto. No estudo de comportamento com adultos autistas, a situação de trabalho e a presença de ansiedade e de depressão associadas apareceram entre os fatores que parecem influenciar o padrão de sono.[3](#ref3) Jornada com horário fixo, turno, trabalho noturno, estar sem trabalho, um quadro de ansiedade ou de depressão em curso: cada uma dessas situações muda o que é possível ajustar e o que faz sentido tentar primeiro. Quando o que está em primeiro plano é a ruminação ao deitar, o caminho é outro, e o texto sobre [ruminação](/blog/ruminacao-por-que-a-cabeca-nao-larga) descreve esse mecanismo. Quando o quarto é a questão — ruído, luz, textura —, vale ler sobre [hipersensibilidade sensorial](/glossario/hipersensibilidade-sensorial).

A pergunta sobre melatonina aparece sempre, e a resposta honesta é parcial. A revisão sobre TDAH registra que há evidência de que o tratamento com melatonina possa ser eficaz para os problemas de sono relacionados ao transtorno, e acrescenta que, até então, poucos estudos haviam examinado outras abordagens cronoterápicas nesse quadro.[1](#ref1) Do lado do autismo adulto, o estudo de melatonina salivar observou que subidas maiores do hormônio na hora anterior ao sono se associaram a sono mais eficiente nos grupos autistas[4](#ref4) — uma associação medida, que não é o mesmo que indicação de uso; aquele estudo não a sustenta. Se, quando e de que forma qualquer coisa disso cabe em um caso é decisão clínica individual, tomada com quem acompanha a pessoa, e a página sobre [medicação psiquiátrica](/medicacao-psiquiatrica) trata do que entra nessa conversa.

## O que costuma entrar na conversa

O ponto de partida é distinguir, junto com a pessoa, entre não conseguir dormir e dormir em outro horário — porque o que se tenta nos dois casos é diferente. Alguns recursos que aparecem nessa conversa:

- **Registrar antes de mudar.** Diário de sono e actigrafia por duas semanas foram justamente os instrumentos com que os estudos citados aqui descreveram padrão de sono em adultos autistas.[3](#ref3) Duas semanas de registro mostram se existe um horário próprio estável ou uma bagunça que varia a cada noite — e são coisas diferentes.
- **Separar o horário de deitar do horário de dormir.** Anotar os dois, em vez de só o primeiro, torna visível o tamanho do intervalo acordado e evita que ele seja lido como falta de esforço.
- **Olhar o entorno antes do relógio.** Jornada, turno, ansiedade e depressão associadas entram na avaliação do padrão de sono, não como desculpa, mas porque a pesquisa as encontra ali.[3](#ref3)
- **Negociar o início da jornada, quando houver essa possibilidade.** Horário flexível de entrada, reuniões fora da primeira hora e trabalho remoto em parte da semana são acomodações que mudam o conflito de base. Não dependem de o relógio interno mudar.
- **Levar a pergunta sobre cronoterapia e melatonina para a avaliação**, sabendo que a evidência é desigual entre os quadros e entre as abordagens.[1](#ref1)[4](#ref4)

Quando o que existe é insônia — dificuldade persistente de iniciar ou manter o sono, com prejuízo diurno —, e não um horário deslocado, há um tratamento de primeira linha com evidência própria, descrito no texto sobre [insônia crônica e TCC-I](/blog/insonia-cronica-tcc-i-primeira-linha). Os dois quadros podem coexistir, e separá-los é parte do trabalho. A página sobre [sono em adultos neurodivergentes](/sono) reúne o conjunto desses textos.

## Perguntas frequentes

### Atraso de fase do sono é o mesmo que insônia?

Não. Na insônia, a dificuldade de iniciar ou manter o sono persiste mesmo quando o horário é livre. No atraso de fase, o sono costuma ser adequado em duração e em qualidade quando a pessoa pode seguir o próprio horário, segundo a descrição do DSM-5-TR; o problema é o choque entre esse horário e o exigido pela rotina. Os dois podem coexistir, e a distinção muda o que se tenta.

### Dormir tarde é sinal de TDAH ou de autismo?

Não por si só. Dormir tarde tem muitas causas, do turno de trabalho à preferência de horário que uma parte das pessoas tem sem nenhum diagnóstico. A pesquisa descreve associação entre TDAH e cronotipo mais vespertino em grupos de pacientes, não um sinal que identifique alguém individualmente — e a revisão disponível reúne crianças e adultos sem separá-los.

### Adultos autistas têm o relógio biológico atrasado?

Como grupo, a evidência não sustenta essa afirmação. Em um estudo de comportamento de sono, uma proporção maior de adultos autistas do que de controles preencheu critérios para transtorno do ritmo circadiano, sobretudo o de fase atrasada; outro, do mesmo grupo de pesquisa, não encontrou diferença média no horário de início da melatonina, com adiantamentos e atrasos aparecendo caso a caso. O que se descreve é variação individual.

### Melatonina resolve?

A revisão sobre TDAH registra evidência de que o tratamento com melatonina possa ser eficaz para os problemas de sono relacionados ao transtorno, e nota que outras abordagens de ajuste de ritmo foram pouco estudadas. No autismo adulto, o estudo de melatonina salivar citado aqui não sustenta indicação de uso. Qualquer decisão sobre medicação é individual e se toma na consulta.

### Existe exame que mostre se meu ritmo está deslocado?

Em pesquisa, mede-se o início da secreção de melatonina sob luz fraca, com coletas em ambiente de luz controlada. Os estudos aqui citados usaram também diário de sono e actigrafia por uma a duas semanas. A avaliação de um transtorno do ritmo circadiano é clínica e se apoia nesse tipo de registro de horários, não em um exame único.

### Mudar o horário aos poucos funciona?

Não há, nas referências deste texto, evidência que permita responder com números. A revisão sobre TDAH é explícita ao dizer que, além da melatonina, poucos estudos até então haviam examinado outras abordagens de ajuste de ritmo nesse quadro. Enquanto isso não muda, a decisão segue sendo clínica e individual.

## Referências

1. Coogan AN, McGowan NM. A systematic review of circadian function, chronotype and chronotherapy in attention deficit hyperactivity disorder. *Atten Defic Hyperact Disord*. 2017;9(3):129-147. [DOI: 10.1007/s12402-016-0214-5](https://doi.org/10.1007/s12402-016-0214-5)
2. Van Veen MM, Kooij JJS, Boonstra AM, Gordijn MCM, Van Someren EJW. Delayed Circadian Rhythm in Adults with Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder and Chronic Sleep-Onset Insomnia. *Biol Psychiatry*. 2010;67(11):1091-1096. [DOI: 10.1016/j.biopsych.2009.12.032](https://doi.org/10.1016/j.biopsych.2009.12.032)
3. Baker EK, Richdale AL. Examining the Behavioural Sleep-Wake Rhythm in Adults with Autism Spectrum Disorder and No Comorbid Intellectual Disability. *J Autism Dev Disord*. 2017;47(4):1207-1222. [DOI: 10.1007/s10803-017-3042-3](https://doi.org/10.1007/s10803-017-3042-3)
4. Baker EK, Richdale AL, Hazi A, Prendergast LA. Assessing the Dim Light Melatonin Onset in Adults with Autism Spectrum Disorder and No Comorbid Intellectual Disability. *J Autism Dev Disord*. 2017;47(7):2120-2137. [DOI: 10.1007/s10803-017-3122-4](https://doi.org/10.1007/s10803-017-3122-4)
5. American Psychiatric Association. *Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais* (DSM-5-TR). 5ª ed., texto revisado. 2022.

*Este conteúdo é educacional e não substitui consulta médica individual.*
