# Depressão e trabalho: presenteísmo, afastamento e retorno

> Parte do impacto da depressão no trabalho não aparece em registro de falta: é a dos dias de presença em que o rendimento cai. O que os estudos de custo estimam, o que a pesquisa encontra sobre afastamento e retorno, e o que a resolução sobre atestado prevê.

**Canonical:** https://diegotinoco.com.br/blog/depressao-e-trabalho-presenteismo
**Autor:** Dr. Diego Tinoco — Médico Psiquiatra (CRM-MG 58241, RQE 37921)
**Publicado em:** 2026-10-20
**Revisado em:** 2026-10-20

---
## Dois custos diferentes, e só um deles deixa marca

Quando se fala de depressão e trabalho, a imagem que vem primeiro é a da ausência: o atestado entregue no RH, os dias sem registro de ponto, a tarefa que ficou esperando. Esse custo tem nome — absenteísmo — e é o mais fácil de medir, porque deixa rastro administrativo.

O outro custo não deixa. É o dos dias em que a pessoa está no posto de trabalho, cumpre o horário, entra nas reuniões, responde o que lhe pedem, e ainda assim entrega menos do que entregaria fora de um episódio depressivo. Esse se chama [presenteísmo](/glossario/presenteismo), e a pesquisa em economia da saúde insiste nele justamente porque ele não aparece em lugar nenhum: não há falta para contar nem documento para arquivar.

A distinção parece burocrática e não é. Ela decide o que a empresa enxerga, o que um gestor interpreta como desempenho e também o que a própria pessoa conclui sobre si mesma — que o problema é esforço, e não um quadro de saúde em curso.

## O que os estudos de custo estimam

Um estudo transversal publicado em *Social Psychiatry and Psychiatric Epidemiology* estimou os custos de absenteísmo e de presenteísmo ligados à depressão em oito países de culturas e níveis de renda bem diferentes, entre eles o Brasil. Os custos associados ao presenteísmo tenderam a ser de cinco a dez vezes maiores que os associados ao absenteísmo, e o custo médio de presenteísmo por pessoa esteve entre os mais altos no Brasil e nos Estados Unidos.[1](#ref1) A conclusão dos autores é que o impacto da depressão no ambiente de trabalho é considerável em todos os países estudados, independentemente de renda nacional ou de cultura.[1](#ref1)

Vale saber como esse número é construído, porque isso muda o peso que ele carrega: são estimativas econômicas montadas a partir de autorrelato de produtividade, não medidas diretas de produção. O estudo não diz quantas pessoas com depressão seguem trabalhando durante o episódio — ele estima custo, não frequência. O que ele permite afirmar é mais modesto e ainda assim relevante: nessas estimativas, a parte do custo que ninguém registra é a maior parte.[1](#ref1)

O absenteísmo tem onde ser anotado. O presenteísmo se distribui por dias de presença — e é por isso que passa sem registro, não por ser pequeno.

## Faltar e render menos não vêm do mesmo lugar

Um estudo com cerca de cinco mil trabalhadores, publicado no *Journal of Affective Disorders*, cruzou uma escala de sintomas depressivos com um questionário de desempenho no trabalho. Encontrou o que se esperaria: quanto mais intensos os sintomas, mais faltas e menor desempenho relatado.[2](#ref2) O achado menos óbvio está no detalhe. Ao separar os sintomas em vez de somá-los num escore único, os autores observaram que os sintomas que mais contribuíram para o presenteísmo foram os de natureza cognitiva, enquanto os que mais contribuíram para a ausência foram os de natureza comportamental.[2](#ref2)

Em linguagem de dia a dia: aquilo que faz a pessoa não conseguir sair de casa é de uma ordem; aquilo que a faz passar quarenta minutos relendo o mesmo parágrafo, ou travar diante de uma decisão pequena, é de outra. São dois mecanismos, e um deles é invisível para quem só olha a folha de ponto.

Os limites desse estudo precisam ser ditos, porque mudam o que ele autoriza concluir: é transversal, baseado em autorrelato, e a amostra foi recrutada para avaliar um aplicativo de saúde mental, o que significa que as pessoas se candidataram. Ele não estabelece causa e não serve como prevalência. O abstract também não nomeia quais sintomas específicos pesaram mais em cada desfecho — fala de naturezas, não de itens. Os próprios autores sugerem que a distinção tem implicação prática para decisões de tratamento e de retorno ao trabalho.[2](#ref2)

## Quando o afastamento entra na conversa

Em algum ponto a pergunta aparece: afastar ou seguir? Ela não tem resposta genérica, e quem a responde é a pessoa com quem ela está em tratamento, caso a caso, considerando intensidade dos sintomas, tipo de trabalho, rede de apoio e o que o afastamento significa concretamente na vida dela — inclusive em renda.

O que dá para dizer de forma geral é como funciona o documento. A Resolução CFM nº 2.381/2024, que normatiza a emissão de documentos médicos e segue em vigor com a alteração feita pela Resolução CFM nº 2.418/2024, trata do atestado em seu art. 5º.[5](#ref5) O §3º diz que o médico só pode fornecer atestado com o diagnóstico, codificado ou não, "quando por justa causa, em exercício de dever legal ou por solicitação do próprio paciente ou de seu representante legal".[5](#ref5) O §4º acrescenta que, quando a solicitação vem do paciente, essa concordância fica expressa no próprio atestado e registrada em prontuário.[5](#ref5)

Na prática, isso responde a uma preocupação muito comum de quem precisa de atestado e teme o que vai acontecer depois: o diagnóstico, ou o código da CID, não entra no atestado por padrão. Ele entra quando a pessoa pede ou concorda, ou nas hipóteses de justa causa e dever legal previstas na resolução. Quando o documento é pedido para perícia, a figura prevista na mesma resolução é outra, o relatório médico especializado, mais extenso.[5](#ref5) Questões trabalhistas e previdenciárias específicas — estabilidade, benefício, enquadramento — são do campo jurídico, e quem orienta sobre elas é a Defensoria Pública, um sindicato ou um advogado.

## O que a pesquisa encontra sobre o retorno

A revisão Cochrane sobre intervenções para melhorar o retorno ao trabalho de pessoas com depressão reuniu 45 estudos, com mais de doze mil participantes, e avaliou a certeza de cada achado pelo método GRADE.[3](#ref3) O resumo dela é menos espetacular e mais útil do que manchete de produtividade:

- Combinar uma intervenção voltada ao trabalho com uma intervenção clínica **provavelmente reduz** os dias de afastamento no primeiro ano de seguimento — certeza moderada.[3](#ref3)
- Essa mesma combinação **não** reduz o número de pessoas afastadas além de um ano de seguimento, e aqui a certeza é alta.[3](#ref3) O ganho existe e é limitado no tempo.
- Intervenções psicológicas **podem reduzir** os dias de afastamento em comparação com o cuidado habitual — certeza baixa.[3](#ref3)
- Não houve evidência de diferença entre um antidepressivo e outro quanto ao efeito sobre afastamento.[3](#ref3)

Duas leituras saem daí. A primeira é que a combinação importa: tratar o quadro e mexer na situação de trabalho fazem coisas diferentes, e a revisão aponta para o conjunto, não para um dos dois. A segunda é que os efeitos são pequenos e a certeza, no geral, baixa a moderada — nenhuma dessas intervenções garante retorno, e a própria revisão termina pedindo mais pesquisa sobre qual combinação funciona melhor.[3](#ref3) Quem promete resultado está prometendo além do que a evidência tem.

## O que se associa a um retorno mais lento

Uma revisão sistemática com metanálise de estudos de coorte, publicada no *Journal of Psychiatric Research*, reuniu dados de cinco países sobre o que prevê o retorno ao trabalho depois de um afastamento por depressão. Idade maior, presença de outras condições físicas, presença de outras condições psiquiátricas e depressão mais grave se associaram a uma taxa menor de retorno; o traço de conscienciosidade se associou a uma taxa maior.[4](#ref4)

Três ressalvas acompanham esse resultado, e são dos próprios autores. Houve heterogeneidade significativa entre os estudos, o que torna os fatores indicativos e não regras.[4](#ref4) São associações observadas em grupos — não dizem o que vai acontecer com uma pessoa. E há poucos estudos observacionais sobre o tema: a revisão termina pedindo que a pesquisa futura olhe para o papel do local de trabalho e do mercado de trabalho, e não só para características individuais.[4](#ref4) Essa última frase é a mais importante do conjunto, porque desloca a pergunta. Boa parte do que determina um retorno não está dentro de quem retorna.

## Por onde isso costuma começar

Considere uma situação fictícia, só para fixar a ideia. Alguém percebe há meses que as tarefas levam o dobro do tempo, que as decisões pequenas travam e que o fim de semana inteiro vai embora em recuperação. Não faltou nenhum dia. A avaliação de desempenho veio mais fraca, e a conclusão imediata foi sobre caráter: está se acomodando. Nessa leitura, não há nada a tratar — só a cobrar.

O que muda a leitura é nomear o que está acontecendo. Isso não exige uma porta específica: psiquiatra, psicólogo, médico de família e os serviços de saúde mental da rede pública, como os CAPS, são caminhos legítimos e autônomos de entrada, e nenhum depende de encaminhamento do outro. O texto sobre [saúde mental no trabalho](/blog/a-importancia-da-saude-mental-no-trabalho) trata do contexto mais amplo; a página sobre [depressão em adultos](/depressao) reúne como o quadro é avaliado e quais são as linhas de tratamento, e o texto sobre [prevenção de recaída](/blog/prevencao-de-recaida-depressao) cobre o período seguinte, que é quando o retorno ao trabalho costuma acontecer.

Do lado do trabalho, o que a revisão Cochrane sugere é que intervenção clínica e ajuste na situação de trabalho andam melhor juntas do que separadas.[3](#ref3) Ajuste aqui é concreto: carga, prazos, etapa de retomada gradual, clareza sobre prioridades. Nada disso substitui tratamento, e tratamento nenhum compensa uma rotina de trabalho que não comporta recuperação.

## Perguntas frequentes

### O que é presenteísmo?

É estar presente no trabalho e entregar menos do que se entregaria fora de um episódio de adoecimento. Em depressão, é a parte do impacto que não aparece em registro de falta, e os estudos de custo indicam que ela tende a pesar mais que a das ausências.

### Preciso dizer meu diagnóstico ao meu empregador?

Pela Resolução CFM nº 2.381/2024, o diagnóstico ou o código da CID só consta do atestado por justa causa, em exercício de dever legal, ou quando a própria pessoa solicita ou concorda — e, nesse caso, a concordância fica expressa no documento. Dúvidas sobre direitos e consequências trabalhistas são jurídicas, e cabem a um advogado, a um sindicato ou à Defensoria Pública.

### Afastar do trabalho ajuda ou atrapalha?

Não existe resposta única. A revisão Cochrane avaliou intervenções, não a decisão de afastar em si, e o que ela encontra é que combinar tratamento clínico com uma intervenção voltada ao trabalho provavelmente reduz dias de afastamento no primeiro ano. A decisão é individual e se toma com quem acompanha o caso.

### Trabalhar menos bem durante um episódio depressivo é falta de esforço?

A pesquisa não descreve dessa forma. Ela observa que a intensidade dos sintomas se relaciona com queda de desempenho relatado, e que os sintomas que mais pesam nessa queda são de natureza cognitiva. O que está em jogo são processos de concentração e decisão, não disposição.

### Existe antidepressivo melhor para quem precisa voltar a trabalhar?

A revisão Cochrane não encontrou evidência de diferença entre um antidepressivo e outro quanto ao efeito sobre afastamento. A escolha de medicação, quando indicada, se faz por outros critérios e em decisão compartilhada.

### Quanto tempo leva para voltar?

Varia muito. A metanálise de coortes identificou fatores associados a retorno mais lento em grupos, como maior gravidade e presença de outras condições de saúde, mas com heterogeneidade importante entre os estudos. São associações populacionais, não previsão sobre uma pessoa.

## Referências

1. Evans-Lacko S, Knapp M. Global patterns of workplace productivity for people with depression: absenteeism and presenteeism costs across eight diverse countries. *Soc Psychiatry Psychiatr Epidemiol*. 2016;51(11):1525-1537. [DOI: 10.1007/s00127-016-1278-4](https://doi.org/10.1007/s00127-016-1278-4)
2. Johnston DA, Harvey SB, Glozier N, Calvo RA, Christensen H, Deady M. The relationship between depression symptoms, absenteeism and presenteeism. *J Affect Disord*. 2019;256:536-540. [DOI: 10.1016/j.jad.2019.06.041](https://doi.org/10.1016/j.jad.2019.06.041)
3. Nieuwenhuijsen K, Verbeek JH, Neumeyer-Gromen A, Verhoeven AC, Bültmann U, Faber B. Interventions to improve return to work in depressed people. *Cochrane Database Syst Rev*. 2020;(12):CD006237. [DOI: 10.1002/14651858.CD006237.pub4](https://doi.org/10.1002/14651858.CD006237.pub4)
4. Ervasti J, Joensuu M, Pentti J, Oksanen T, Ahola K, Vahtera J, et al. Prognostic factors for return to work after depression-related work disability: A systematic review and meta-analysis. *J Psychiatr Res*. 2017;95:28-36. [DOI: 10.1016/j.jpsychires.2017.07.024](https://doi.org/10.1016/j.jpsychires.2017.07.024)
5. Conselho Federal de Medicina. *Resolução CFM nº 2.381/2024* — normatiza a emissão de documentos médicos. DOU de 02/07/2024, Ed. 125, Seção 1, p. 277, com a alteração dada pela Resolução CFM nº 2.418/2024 (DOU de 09/10/2024). [Texto oficial (PDF)](https://sistemas.cfm.org.br/normas/arquivos/resolucoes/BR/2024/2381_2024.pdf)

*Este conteúdo é educacional e não substitui consulta médica individual.*
