# Efeitos da cocaína: o que a literatura mostra e o que o psiquiatra observa

> Cocaína bloqueia DAT, eleva dopamina mesolímbica. Critérios DSM-5-TR para Transtorno por Uso de Cocaína, comorbidades psiquiátricas (depressão, ansiedade, TDAH não diagnosticado), sinais clínicos e onde encaminhar.

**Canonical:** https://diegotinoco.com.br/blog/efeitos-da-cocaina
**Autor:** Dr. Diego Tinoco — Médico Psiquiatra (CRM-MG 58241, RQE 37921)
**Publicado em:** 2026-05-25
**Revisado em:** 2026-05-25

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## Efeitos da cocaína: o que a literatura mostra e o que o psiquiatra observa

Esse post responde a uma busca clínica recorrente — "o que a cocaína faz com o cérebro?", "quais os efeitos psiquiátricos?", "como saber se já é dependência?" — sem moralismo, sem glamour, e com referências verificáveis. Não atendo casos de uso problemático crônico de substâncias (esse cuidado requer serviço especializado), mas reconhecer a clínica e saber para onde encaminhar é parte do trabalho do psiquiatra geral.

## O que a cocaína faz no cérebro, de forma resumida

A cocaína age primariamente bloqueando o transportador de dopamina (DAT), elevando agudamente a dopamina extracelular no sistema mesolímbico — o circuito que sinaliza recompensa. Também afeta noradrenalina e serotonina. O efeito agudo:

- Euforia intensa (5-30 minutos via inalação, 5-10 minutos via fumo de crack);
- Aumento de alerta, energia e percepção de capacidade;
- Taquicardia, hipertensão, vasoconstrição;
- Redução de apetite e sono;
- Sensação aumentada de competência social.

O efeito agudo dura pouco. O que vem depois — a "queda" — é o oposto: irritabilidade, fadiga, sintomas depressivos, anedonia. O ciclo curto e intenso é parte do que torna a substância tão capturadora: o reforço positivo é máximo e a aversão da abstinência aguda empurra rapidamente para outra dose.

## Quando uso vira transtorno (critérios DSM-5-TR)

O DSM-5-TR não classifica mais "abuso" vs "dependência" como categorias separadas. Em vez disso, define **Transtorno por Uso de Cocaína** (CID-11: 6C45), com gravidade leve (2-3 critérios), moderada (4-5) ou grave (6+) dentre os 11 critérios em quatro grupos:

- **Controle prejudicado** — uso em quantidades maiores que pretendido; tentativas malsucedidas de reduzir; tempo investido em obter/usar; *craving*;
- **Prejuízo social** — falha em obrigações; uso apesar de problemas interpessoais; abandono de atividades importantes;
- **Uso de risco** — uso em situação perigosa (dirigir); continuação apesar de saber dano físico/psicológico;
- **Critérios farmacológicos** — tolerância (precisar mais); abstinência (sintomas ao parar).

Não é o "tipo de quem usa" que define dependência — é o padrão funcional. Um executivo que usa todo fim de semana, perde produtividade na segunda e mente para a esposa pode cumprir 6 critérios; um adolescente que experimentou uma vez na vida não cumpre nenhum.

## Comorbidades psiquiátricas — o que esperar no consultório

Razzouk e colaboradores (2000), em estudo brasileiro publicado em *Substance Use & Misuse*, avaliaram 50 homens usuários de cocaína não-injetável em atendimento ambulatorial e encontraram que **69% apresentavam pelo menos um transtorno do Eixo I ou Eixo II do DSM-III-R** — particularmente transtornos de ansiedade (31%) e transtornos depressivos (20%). Mais relevante clinicamente: o número de comorbidades psiquiátricas correlacionou com pior funcionamento global.[[1]](#ref1)

A revisão de van Loo e Schoevers (2015) em *Depression and Anxiety* traz o argumento mais amplo: comorbidade não é coincidência — quadros de uso de substâncias e quadros depressivos/ansiosos compartilham circuitos neurobiológicos e fatores de risco. Tratar apenas um lado dificilmente sustenta resultado.[[2]](#ref2)

Padrões comuns que vejo encaminhados ao consultório:

- **Depressão pós-uso prolongado** — anedonia que persiste semanas após cessação; pode requerer tratamento medicamentoso paralelo;
- **Transtorno de ansiedade primário "automedicado" com cocaína** — o uso é tentativa (ineficaz a longo prazo) de funcionar socialmente;
- **TDAH não-diagnosticado** — alguns pacientes descobrem TDAH na investigação por uso de estimulantes; o sistema dopaminérgico hipofuncional cria atração específica pela substância. Vale avaliar.

## Sinais clínicos e laboratoriais

Sinais que costumam aparecer:

- Insônia que melhora paradoxalmente com uso (cocaína cria insônia maior — mas alivia ansiedade aguda);
- Perda de peso inexplicada;
- Epistaxe recorrente, perfuração septal (uso intranasal crônico);
- Episódios de paranoia ou psicose transitória em uso de altas doses;
- Padrões financeiros desproporcionais à renda;
- Comorbidade frequente com álcool (forma o coquetel cocaetileno, mais cardiotóxico que cocaína isolada).

Em uso pesado prolongado, alterações cognitivas mensuráveis (atenção, controle inibitório, memória de trabalho) — algumas reversíveis com abstinência, outras parcialmente persistentes. Liu e Cheong (2020), em *Drug and Alcohol Dependence*, analisaram 2.988 usuários de cocaína do NESARC-III e mostraram que **frequência** de uso durante o período de uso mais pesado teve a associação mais forte com Transtorno por Uso de Cocaína DSM-5, enquanto duração teve a associação mais fraca — sugerindo que quem usa muitas vezes mesmo por períodos curtos atinge dependência mais rápido que quem usa pouco por longos períodos.[[3]](#ref3)

## Para onde encaminhar

Atendimento de transtorno por uso de cocaína exige **equipe multiprofissional**. O psiquiatra geral participa, mas raramente é o único cuidador. Caminhos:

- **CAPS-AD** (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas) — porta SUS gratuita, em toda capital;
- **Clínicas privadas especializadas em adicção** — programa estruturado, internação parcial ou total quando indicada;
- **Comunidades terapêuticas reguladas pela ANVISA** — para quadros severos com necessidade de afastamento;
- **Grupos de mútua ajuda** — Narcóticos Anônimos (NA), com presença em todo o país.

Psiquiatra geral cumpre papel essencial em: avaliação diagnóstica inicial, tratamento de comorbidades (depressão, ansiedade, TDAH), suporte à família, manejo de crise de abstinência leve. Mas o programa principal de tratamento da dependência precisa ser conduzido por serviço dedicado.

## Referências

1. Razzouk D, Bordin IA, Jorge MR. Comorbidity and Global Functioning (DSM-III-R Axis V) in a Brazilian Sample of Cocaine Users. *Subst Use Misuse*. 2000;35(9):1307-1315. [DOI: 10.3109/10826080009147484](https://doi.org/10.3109/10826080009147484)
2. van Loo HM, Schoevers RA. Psychiatric Comorbidity Does Not Only Depend on Diagnostic Thresholds: An Illustration With Major Depressive Disorder and Generalized Anxiety Disorder. *Depress Anxiety*. 2015;32(7):527-535. [DOI: 10.1002/da.22453](https://doi.org/10.1002/da.22453)
3. Liu Y, Cheong J, Setlow B, Cottler LB. The association between quantity, frequency and duration of cocaine use during the heaviest use period and DSM-5 cocaine use disorder. *Drug Alcohol Depend*. 2020;213:108114. [DOI: 10.1016/j.drugalcdep.2020.108114](https://doi.org/10.1016/j.drugalcdep.2020.108114)
