# História do TDAH: dos primeiros relatos clínicos ao DSM-5-TR

> De Crichton (1798) ao DSM-5-TR / CID-11 (2022): a evolução do TDAH como conceito clínico, com marcos verificáveis e referências.

**Canonical:** https://diegotinoco.com.br/blog/historia-do-tdah
**Autor:** Dr. Diego Tinoco — Médico Psiquiatra (CRM-MG 58241, RQE 37921)
**Publicado em:** 2023-08-15 20:11:00
**Revisado em:** 2026-05-18

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## História do TDAH: do "inquieto" de 1798 ao DSM-5-TR

O TDAH não é "moda" nem "invenção recente". A primeira descrição clínica reconhecida data de mais de 220 anos, e a evolução do conceito acompanha o desenvolvimento da própria psiquiatria moderna. Este artigo traça os marcos principais — com fontes verificáveis — para situar o leitor diante de um quadro que tem história longa, evidência sólida e impacto real.

## 1798 — Alexander Crichton e a "fidget" da atenção

O médico escocês **Alexander Crichton**, em sua obra *An Inquiry into the Nature and Origin of Mental Derangement* (Londres, 1798), descreveu uma "inquietação mórbida" (em inglês, "*mental restlessness*") em que pessoas eram incapazes de manter atenção sustentada em um único objeto. A descrição é notavelmente similar aos critérios contemporâneos para TDAH com predomínio de desatenção.[1](#ref1)

## 1845 — Heinrich Hoffmann e "Fidgety Phil"

O psiquiatra alemão **Heinrich Hoffmann**, autor do livro infantil *Der Struwwelpeter* (Pedro Cabeleireiro), descreveu personagens como "Zappel-Philipp" (Filipe Mexedor) e "Hans Guck-in-die-Luft" (João Olha-as-Nuvens) — figuras que retratam exatamente o que hoje chamamos de hiperatividade-impulsividade e desatenção, respectivamente. Foi publicação para crianças, mas Hoffmann era médico, e suas observações refletiam o que via na clínica.[2](#ref2)

## 1902 — George Still e "defective moral control"

O pediatra britânico **George Frederick Still**, em série de três palestras no Royal College of Physicians (publicadas em *The Lancet*), descreveu 43 crianças com "um defeito anormal de controle moral" — não no sentido ético, mas de capacidade de regular comportamento conforme normas sociais. Identificou impulsividade, agressividade e dificuldade com atenção, e propôs base biológica para o quadro. Esse trabalho costuma ser citado como a primeira descrição médica sistemática do que hoje é o TDAH.[3](#ref3)

## 1937 — A descoberta acidental dos estimulantes

O médico americano **Charles Bradley**, ao tratar crianças com cefaleia em uma clínica residencial em Providence (EUA), administrou benzedrina (anfetamina) acreditando que estimularia a produção de líquor. O efeito sobre cefaleia foi modesto — mas os professores notaram que as crianças passaram a ter desempenho marcadamente melhor em aritmética e melhor comportamento em sala. Bradley publicou o achado em *American Journal of Psychiatry*: o efeito paradoxalmente calmante dos estimulantes em crianças com problemas de atenção.[4](#ref4) Esse foi o início da farmacoterapia para o que viria a ser chamado de TDAH.

## 1956-1968 — O metilfenidato e o DSM-II

O **metilfenidato** foi sintetizado em 1944 e introduzido clinicamente nos anos 1950, ampliando o arsenal terapêutico. Em 1968, o DSM-II reconheceu formalmente uma entidade chamada **"Reação Hipercinética da Infância"** — a primeira aparição oficial em manual diagnóstico, focada na dimensão motora (hiperatividade).

## 1980 — O DSM-III e o "ADD"

O DSM-III, publicado em 1980, foi um marco. Renomeou o quadro para **"Transtorno do Déficit de Atenção"** (Attention Deficit Disorder — ADD), com ou sem hiperatividade. Por primeira vez, o critério central passou a ser a atenção, não a agitação motora — abrindo espaço para o reconhecimento da forma desatenta, especialmente em meninas e adultos que não exibiam o quadro estereotipado.[5](#ref5)

## 1987-1994 — DSM-III-R e DSM-IV: consolidação

O DSM-III-R (1987) reuniu desatenção e hiperatividade sob a sigla atual **"ADHD" (TDAH)**. O DSM-IV (1994) consolidou os três subtipos: predominantemente desatento, predominantemente hiperativo-impulsivo, e combinado. Esse framework ainda orienta a clínica.

## 1990s — Reconhecimento do TDAH no adulto

Apesar das observações antigas, o TDAH no adulto só recebeu validação consistente na literatura científica nos anos 1990, principalmente com os trabalhos de **Russell Barkley**, **Joseph Biederman** e colaboradores. Antes disso, prevalecia o mito de que TDAH "desaparecia na adolescência".[6](#ref6) Hoje, sabemos que persiste em **2,5% a 5%** da população adulta.[7](#ref7)

## 2013 — DSM-5: TDAH adulto formalizado

O DSM-5 (2013) explicitou os critérios para diagnóstico em adultos:

- Critério reduzido de 6 para **5 sintomas** em adultos (eram exigidos 6 em crianças);
- Idade de início ampliada de 7 para **12 anos**;
- Necessidade de sintomas em **dois ou mais contextos**.

Essas mudanças formalizaram décadas de evidência clínica.[8](#ref8)

## 2022 — DSM-5-TR e CID-11

O **DSM-5-TR** (American Psychiatric Association, 2022) mantém os critérios do DSM-5 com refinamentos textuais. A **CID-11** (OMS, 2022) usa o código 6A05 e adota critérios essencialmente compatíveis. Os dois sistemas, hoje, têm grande convergência.[8,9](#ref8)

## O que mudou e o que continua igual

O TDAH evoluiu como conceito clínico, mas algumas coisas permanecem:

- A observação central — dificuldade com atenção sustentada, regulação de impulsos, agitação — está presente desde 1798;
- A natureza neurobiológica (não moral) foi defendida por Still em 1902 e confirmada por estudos modernos de neuroimagem;
- A resposta ao tratamento medicamentoso, descoberta por acaso em 1937, segue sendo a evidência farmacológica mais consistente da psiquiatria infantil/adulta.

O TDAH não foi inventado pelo século XXI — apenas passou a ser melhor reconhecido, especialmente em adultos e em mulheres, populações historicamente subdiagnosticadas.

## Aviso importante

Este conteúdo é educacional e não substitui consulta médica individual. O diagnóstico de TDAH exige avaliação clínica completa, conforme regulamentação do CFM. Para agendar uma avaliação, conheça mais sobre o [atendimento em TDAH adulto](/tdah).

Em emergência (ideação suicida, crise psíquica): **SAMU 192**, **CVV 188** (24h, gratuito) ou pronto-socorro mais próximo.

## Referências

1. Palmer ED, Finger S. An early description of ADHD (inattentive subtype): Dr Alexander Crichton and "Mental Restlessness" (1798). *Child Psychol Psychiatry Rev*. 2001;6(2):66-73. [DOI: 10.1017/S1360641701002507](https://doi.org/10.1017/S1360641701002507)
2. Thome J, Jacobs KA. Attention deficit hyperactivity disorder (ADHD) in a 19th century children's book. *Eur Psychiatry*. 2004;19(5):303-306. [DOI: 10.1016/j.eurpsy.2004.05.004](https://doi.org/10.1016/j.eurpsy.2004.05.004)
3. Still GF. Some abnormal psychical conditions in children. *Lancet*. 1902;1:1008-1012, 1077-1082, 1163-1168.
4. Bradley C. The behavior of children receiving Benzedrine. *Am J Psychiatry*. 1937;94(3):577-585. [DOI: 10.1176/ajp.94.3.577](https://doi.org/10.1176/ajp.94.3.577)
5. Lange KW, Reichl S, Lange KM, Tucha L, Tucha O. The history of attention deficit hyperactivity disorder. *Atten Defic Hyperact Disord*. 2010;2(4):241-255. [DOI: 10.1007/s12402-010-0045-8](https://doi.org/10.1007/s12402-010-0045-8)
6. Barkley RA, Murphy KR, Fischer M. *ADHD in Adults: What the Science Says*. New York: Guilford Press; 2008.
7. Polanczyk GV, Willcutt EG, Salum GA, Kieling C, Rohde LA. ADHD prevalence estimates across three decades: an updated systematic review and meta-regression analysis. *Int J Epidemiol*. 2014;43(2):434-442. [DOI: 10.1093/ije/dyt261](https://doi.org/10.1093/ije/dyt261)
8. American Psychiatric Association. *Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders*, 5th ed., Text Revision (DSM-5-TR). Washington, DC: APA Publishing; 2022. [DOI: 10.1176/appi.books.9780890425787](https://doi.org/10.1176/appi.books.9780890425787)
9. World Health Organization. *ICD-11 for Mortality and Morbidity Statistics*. Geneva: WHO; 2022. Disponível em: [https://icd.who.int/](https://icd.who.int/)
