Carta à uma vizinha de cima

Carta à uma vizinha de cima,

Prezada colega,

As 21:40h de uma quarta feira, não sei o que você faz na sua casa nesse momento. Não sei se já encontra-se sobre a cama para dormir, vendo TV, lendo um livro ou prestes a namorar. Definitivamente não sei o que está fazendo e muito menos sei quem você é, mas vale para todos os vizinhos e vizinhas do Brasil.

Ao você soltar sua voz pela janela, não sei exatamente de qual andar, percebo uma voz de raiva e de angústia.

Sua voz diz, em tons elevados “que chato esse menino”. Em seguida diz: “que mala, menino mala, só chora esse menino”.

Foram intensas, foram como se falasse nos meus ouvidos. Talvez por eu estar próximo a janela.

Momento sublime esse. Momento que senti uma imensidão de sentimentos como pai de uma mocinha de 11 meses e não pude segurar e respondi, sem saber quem é você e o que passa por trás de toda sua história: “Essa criança tem pai e tem mãe, não fala assim dela”. Passou uns 3 segundos e falei: “você um dia foi criança”.

Ela não mais me respondeu. Ficou em silêncio.

Não sei como foi a infância dessa mulher que gritou, não sei o que se passa na cabeça dela, não sei a história dela.

Vejo que ela não está bem. Vejo que o choro da criança a perturba de forma importante e provavelmente está a impedindo de fazer algo, mesmo que seja dormir.

A criança chorou mais um pouco, e depois dormiu.

Imagino que não deve ser fácil para essa colega vizinha, assim como para outros colegas moradores do prédio desse condomínio escutar uma criança chorando nesse horário.

Os pais dessa criança dão atenção e carinho, e mais do que isso:

Os pais dessa criança espera que ela cresça sendo protagonista de sua vida.

Se algo a está incomodando, que aprenda a não insultar e xingar, principalmente um vulnerável, e sem condição de se defender.

Os pais dessa criança deseja ensina-lá, do fundo do coração, que se algo a incomoda do outro lado, que evite fazer julgamentos.

Os pais dessa criança deseja ensina-lá, que em vez de criticar e xingar o colega, vá até ele e pergunte o que está acontecendo e se pode ajudar em algo.

Os pais dessa criança, deseja mostrar, que podemos ser mais fraternos e seres humanos!

E se a senhora, um dia desejar conversar, estaremos de braços abertos, para você nos conhecer e bater um papo sobre as dificuldades e felicidades da vida.

Mas se a senhora acha isso tudo um tremendo papo furado e ladainha, sugiro comprar um tampão de ouvidos, pois mais crianças virão ao mundo! Assim, evitará mais nervosismo e xingamentos para uma criança.

Que menos crianças possam escutar tais palavras ou até piores por aí, em momentos de impulsividade de nós, adultos.

Que mais crianças possam presenciar e escutar:

Posso ajudar em algo?

Estamos a disposição.

Abraços

PS: direcionado a todos os vizinhos e vizinhas do Brasil.

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