Saúde Mental para os profissionais de Saúde na Pandemia – Relato da China

No dia 18 de Fevereiro um artigo produzido por Qiongni Chen e colaboradores foi publicado na The Lancet, importante revista científica internacional.

Os autores informam sobre o planejamento e proposta de trabalho na área da saúde mental desenvolvida em um dos maiores hospitais da província de Hunan, na China. O trabalho foi desenvolvido diretamente para àqueles funcionários e profissionais de saúde que estavam na linha de frente do combate ao coronavírus. 

Achei interessante o artigo e por isso o descrevi na leitura abaixo, sabendo da importância que é o acompanhamento de todos àqueles que estão na linha de frente. 

Interessante que inicialmente a proposta se deu em três áreas: foi organizada uma equipe médica para elaborar, planejar e fornecer cursos online para orientar a equipe médica a lidar com problemas psicológicos comuns nesse tipo de situação, uma outra equipe de assistencial aos profissionais para auxiliar nos problemas psicológicos, e uma equipe para fazer intervenções psicológicas em pequenos grupos para ajudar a liberar o estresse do momento.

Porém tal abordagem não obteve sucesso por vários motivos diferentes. A equipe médica mostrava-se resistência em participar das atividades, e os enfermeiros mostraram irritabilidade e impaciência com as propostas, mesmo com sinais de sofrimento psicológico. 

Com a dificuldade de implantar o processo, foi feito uma entrevista com os profissionais para entender a recusa no atendimento. 

Nessa entrevista foi observado que a equipe entrevistada inicialmente não tinha uma preocupação imediata em ficar infectada. Posteriormente foi observado que eles não queriam que suas famílias se preocupassem com eles e tinham medo de levar o vírus para sua própria casa, outra questão abordada era que os funcionários não sabiam lidar com os pacientes quando não estavam dispostos a ficar em quarentena no hospital ou não cooperavam com as condutas médicas devido ao pânico ou à falta de conhecimento sobre a doença. Além disso, os funcionários se preocuparam com a escassez de equipamentos de proteção e sentimentos de incapacidade quando confrontados com pacientes graves. Muitos relataram ainda que precisam de setor de descanso sem interrupção na hora do descanso. Por último, a equipe de saúde sugeriu treinamento de habilidades para lidar com a ansiedade, pânico e outros problemas emocionais dos pacientes, e que a equipe de saúde mental estivesse à disposição para ajudá-los a lidar com os pacientes envolvidos. 

Após a entrevista, as medidas de intervenção para a saúde mental dos profissionais foram ajustadas e modificadas.  

Inicialmente, o hospital disponibilizou um lugar para descansar, onde os funcionários poderiam se isolar temporariamente da família. O hospital também garantiu alimentos e suprimentos de vida diária e ajudou a equipe a gravar suas rotinas em vídeo no hospital para compartilhar com suas famílias e aliviar as preocupações dos membros da família. Depois, foi colocada uma equipe de saúde mental para ajudar os pacientes não cooperantes, além de fazer um treinamento pré-trabalho para auxiliar a lidar com pacientes não cooperativos. Foram desenvolvidos atividades de lazer e treinamento sobre como relaxar e reduzir o estresse. Os psicólogos também visitavam à área de descanso para entender as maiores dificuldades dos profissionais. 

O objetivo desse trabalho foi demonstrar o que foi feito para a saúde mental dos profissionais da linha de frente da pandemia, e assim auxiliar outras equipes a observar o que já deu certo e o que não deu certo. Lembrando que cada região ou país tem suas características e peculiaridades. 

Referência: https://www.thelancet.com/journals/lanpsy/article/PIIS2215-0366(20)30078-X/fulltext