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Como saber se tenho TDAH? Critérios DSM-5-TR para diagnóstico em adultos e crianças

Publicado em Última revisão clínica em Dr. Diego Tinoco
Como saber se tenho TDAH? Critérios DSM-5-TR para diagnóstico em adultos e crianças

Como saber se tenho TDAH?

Reconhecer-se em uma lista de sintomas não equivale a um diagnóstico. O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é uma condição clínica do neurodesenvolvimento, e seu diagnóstico exige avaliação por médico — psiquiatra, neurologista ou neuropediatra com experiência na área — porque envolve diagnóstico diferencial com várias outras condições que podem se apresentar de forma parecida (ansiedade, depressão, transtorno bipolar, transtornos de aprendizagem, alterações tireoidianas, entre outras).

Este texto apresenta, em linguagem direta, os critérios diagnósticos atuais (DSM-5-TR, 2022; CID-11, 2022), como o diagnóstico é feito na infância e na vida adulta, o que sabemos sobre causas, e quando faz sentido procurar avaliação clínica.

O que é o TDAH

O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por padrão persistente de desatenção e/ou hiperatividade-impulsividade que interfere no funcionamento ou desenvolvimento. O DSM-5-TR define três apresentações: predominantemente desatenta, predominantemente hiperativa-impulsiva e combinada 1. Na CID-11, o código é 6A05 2.

É uma condição comum. A prevalência mundial em crianças e adolescentes é estimada em torno de 5–7% (Polanczyk et al., 2007) 3. Em adultos, uma meta-análise sistemática recente estimou prevalência global em 4,4%, considerando dados de 21 países (Song et al., 2021) 4. Cerca de 60% das crianças diagnosticadas mantêm o quadro na vida adulta, embora os sintomas tendam a se modificar com o tempo.

O TDAH não é falta de educação, preguiça ou consequência exclusiva de excesso de telas. É uma condição neurobiológica com forte componente genético, descrita há mais de um século na literatura clínica.

Quando o TDAH começa

O DSM-5-TR exige que vários sintomas estejam presentes antes dos 12 anos, embora o diagnóstico possa ser feito muito depois — em adolescentes ou adultos que nunca foram avaliados. Em adultos, é frequente o relato de "sempre fui assim, mas só agora estou entendendo o que era".

É importante distinguir TDAH de quadros de inatenção secundários a estressores recentes (sobrecarga laboral, luto, depressão, ansiedade aguda) — estes costumam ter início mais delimitado no tempo e respondem a estratégias específicas.

Quais são os sintomas — critérios DSM-5-TR

O diagnóstico requer:

  • Crianças (até 16 anos): pelo menos 6 sintomas de desatenção e/ou 6 de hiperatividade-impulsividade.
  • Adolescentes ≥17 anos e adultos: pelo menos 5 sintomas em cada categoria.
  • Os sintomas devem estar presentes por pelo menos 6 meses, em grau inconsistente com o nível de desenvolvimento.
  • Manifestam-se em pelo menos dois contextos (ex.: casa e trabalho, escola e atividade social).
  • Causam prejuízo clinicamente significativo em vida acadêmica, ocupacional ou social.

Sintomas de desatenção

  • Não presta atenção a detalhes ou comete erros por descuido.
  • Dificuldade em sustentar atenção em tarefas ou atividades lúdicas.
  • Parece não escutar quando alguém fala diretamente com ele/ela.
  • Dificuldade em seguir instruções e concluir tarefas (não por desafio ou incompreensão).
  • Dificuldade em organizar tarefas e atividades.
  • Evita ou reluta em iniciar tarefas que exijam esforço mental sustentado.
  • Perde objetos necessários para tarefas (chaves, documentos, óculos, celular).
  • Distrai-se facilmente com estímulos externos ou pensamentos próprios.
  • Esquecimento em atividades cotidianas (compromissos, contas, devolver ligações).

Sintomas de hiperatividade-impulsividade

  • Agitação de mãos ou pés; remexer-se na cadeira.
  • Dificuldade em permanecer sentado em situações em que se espera que fique.
  • Corre ou escala em situações inadequadas (crianças); em adultos, sensação interna de inquietude.
  • Dificuldade em se engajar em atividades de lazer de forma calma.
  • Frequentemente está "a mil" ou age como se "movido a motor".
  • Fala em excesso.
  • Responde antes da pergunta ser concluída.
  • Dificuldade em esperar a vez.
  • Interrompe ou se intromete em conversas, atividades ou objetos de outros.

A apresentação combinada reúne critérios das duas categorias acima. Em adultos, é comum que a hiperatividade motora visível diminua, transformando-se em sensação interna de inquietude — mas a desatenção e a impulsividade tendem a persistir.

Gravidade — leve, moderada, grave

O DSM-5-TR classifica em três níveis com base no impacto funcional:

  • Leve: poucos sintomas além do mínimo necessário, com prejuízo funcional menor.
  • Moderada: sintomas ou prejuízo funcional entre leve e grave.
  • Grave: muitos sintomas além do mínimo, ou sintomas particularmente graves, com prejuízo acentuado em múltiplos contextos.

A classificação tem implicações no tratamento — quadros mais graves tendem a se beneficiar de abordagem combinada (medicação + intervenções comportamentais).

O que sabemos sobre as causas

O TDAH é uma condição multifatorial. A evidência atual, sintetizada no Consenso Internacional da World Federation of ADHD (Faraone et al., 2021) 5, aponta para forte componente genético — herdabilidade estimada em torno de 74% em estudos com gêmeos. Estudos genômicos recentes identificaram dezenas de variantes associadas ao risco de TDAH, todas com efeito pequeno individualmente, mas convergindo para vias relacionadas à neurotransmissão dopaminérgica, noradrenérgica e ao desenvolvimento do córtex pré-frontal.

Fatores ambientais com associação consistente:

  • Prematuridade e baixo peso ao nascer.
  • Exposição pré-natal ao álcool e ao tabaco.
  • Exposição a chumbo na primeira infância.
  • Lesões cerebrais.
  • Adversidades precoces graves (negligência, trauma na infância).

O que não é causa, apesar do mito recorrente: excesso de tela, açúcar ou criação "permissiva". Esses fatores podem agravar dificuldades comportamentais em quem já tem o quadro, mas não causam TDAH.

Como o cérebro se diferencia

Estudos de neuroimagem mostram diferenças sutis mas reprodutíveis em pessoas com TDAH: maturação atrasada do córtex pré-frontal, alterações em circuitos fronto-estriatais (envolvidos em controle inibitório e atenção), e funcionamento diferenciado em redes de atenção e de modo padrão. Essas diferenças são estatísticas em grupo, não diagnósticas individualmente — ninguém é diagnosticado com TDAH por imagem ou exame laboratorial. O diagnóstico é clínico.

Como o diagnóstico é feito em crianças

Em crianças, a avaliação combina:

  • Anamnese clínica: história de desenvolvimento, marcos motores e de linguagem, histórico familiar, exposições no parto e infância.
  • Relatos de múltiplos contextos: pais, professores, cuidadores — porque o critério exige presença em mais de um ambiente.
  • Avaliação neuropsicológica (quando indicada): identifica comorbidades, transtornos de aprendizagem, padrões cognitivos que orientam o plano de tratamento.
  • Avaliação educacional: rendimento, comportamento em sala de aula.
  • Diagnóstico diferencial: depressão, ansiedade, transtornos de aprendizagem, transtorno do espectro autista, transtornos do sono, alterações tireoidianas, deficiências sensoriais.

Como o diagnóstico é feito em adultos

Em adultos, o processo segue lógica semelhante, com algumas particularidades:

  • Anamnese detalhada cobrindo a vida desde a infância. Relatos de familiares próximos (cônjuge, irmãos, pais) ajudam a reconstruir o histórico longitudinal.
  • Instrumentos de triagem validados como a ASRS (Adult ADHD Self-Report Scale, OMS) 6 auxiliam a estruturar a avaliação, sem substituí-la.
  • Avaliação neuropsicológica: útil em casos complexos ou para mapear funções executivas. Não é obrigatória para o diagnóstico em si.
  • Diagnóstico diferencial cuidadoso: muitos quadros se sobrepõem — ansiedade generalizada, depressão, transtorno bipolar tipo II, AuDHD (sobreposição com autismo), trauma complexo, burnout.

Um detalhe clínico importante: em adultos, é comum que o diagnóstico tenha demorado por anos. Estratégias compensatórias desenvolvidas ao longo da vida (hiperfoco em interesses, ambientes profissionais flexíveis, suporte familiar) podem ter mascarado o quadro até que demandas mudaram — chefe novo, maternidade, mudança de função, perda de um suporte que organizava o entorno.

Comorbidades comuns

TDAH raramente vem isolado. Em adultos, é comum encontrar:

  • Transtornos de ansiedade (cerca de 50% dos casos).
  • Depressão maior.
  • Transtornos de uso de substâncias.
  • Transtornos do sono.
  • Sobreposição com Transtorno do Espectro Autista (entre 20% e 50%, conforme metodologia).
  • Dificuldades de aprendizagem específicas.

O diagnóstico de TDAH não exclui outros quadros — frequentemente o tratamento adequado envolve abordar mais de uma condição. Para saber mais sobre TDAH em adultos ou sobre dificuldades cotidianas do TDAH em adultos, há posts dedicados.

E depois do diagnóstico?

O TDAH é uma das condições com tratamento mais bem estudado em psiquiatria. O manejo geralmente combina psicoeducação, intervenções comportamentais e ambientais e, quando indicado, medicação (estimulantes ou não-estimulantes, com escolha individualizada). O objetivo não é "eliminar" o jeito TDAH de funcionar — é reduzir o prejuízo, aproveitar pontos fortes e construir suporte para áreas mais vulneráveis.

Para entender o atendimento clínico para TDAH em adultos, veja a página dedicada sobre TDAH em adultos.

Quando procurar avaliação

Faz sentido buscar avaliação clínica se:

  • Você se reconhece em vários sintomas listados acima, presentes desde a infância.
  • Esses sintomas causam prejuízo em mais de um contexto (trabalho, estudos, relacionamentos, autocuidado).
  • Estratégias que funcionavam pararam de funcionar (mudança de fase de vida, novas demandas).
  • Há histórico familiar de TDAH ou outras condições neurodivergentes.

Em situação de crise emocional grave ou ideação suicida — risco que pode aparecer em quadros de TDAH com comorbidades depressivas ou ansiosas — busque ajuda imediata pelo CVV 188 (atendimento 24h, gratuito), SAMU 192, ou UPA mais próxima.

Agendar avaliação

Se você quer iniciar uma avaliação clínica para TDAH em adultos, o consultório atende presencialmente em Belo Horizonte (Santa Tereza) e por telemedicina para todo o Brasil. Mais informações na página de TDAH em adultos ou pelo contato.

Referências científicas

  1. American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5th ed., Text Revision (DSM-5-TR). Washington, DC: APA Publishing; 2022.
  2. World Health Organization. International Classification of Diseases, 11th Revision (ICD-11). Code 6A05 — Attention deficit hyperactivity disorder. Geneva: WHO; 2022.
  3. Polanczyk G, de Lima MS, Horta BL, Biederman J, Rohde LA. The worldwide prevalence of ADHD: a systematic review and metaregression analysis. American Journal of Psychiatry. 2007;164(6):942-948. DOI: 10.1176/ajp.2007.164.6.942
  4. Song P, Zha M, Yang Q, Zhang Y, Li X, Rudan I. The prevalence of adult attention-deficit hyperactivity disorder: A global systematic review and meta-analysis. Journal of Global Health. 2021;11:04009. DOI: 10.7189/jogh.11.04009
  5. Faraone SV, Banaschewski T, Coghill D, et al. The World Federation of ADHD International Consensus Statement: 208 Evidence-based conclusions about the disorder. Neuroscience & Biobehavioral Reviews. 2021;128:789-818. DOI: 10.1016/j.neubiorev.2021.01.022
  6. Adler LA, Spencer T, Faraone SV, et al. Validity of pilot Adult ADHD Self-Report Scale (ASRS) to rate adult ADHD symptoms. Annals of Clinical Psychiatry. 2006;18(3):145-148.

Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica. Última revisão: maio de 2026.
Em crise: ligue 188 (CVV — atendimento 24h, gratuito) ou 192 (SAMU). Em emergência, procure a UPA mais próxima.


Sobre o autor

Dr. Diego Tinoco Rodrigues · CRM-MG 58241 · RQE 37921

Médico psiquiatra com residência médica pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG). Atende em consultório no bairro Santa Tereza, em Belo Horizonte, e por telemedicina para todo o Brasil — com foco em TDAH em adultos, autismo, ansiedade e depressão, em uma abordagem clínica baseada em evidência e escuta humanizada.

Autor do livro Mesmo quem não fala muito tem muito a dizer — sobre silêncio, sensibilidade e o que existe antes da fala. Idealizador do Portal Neurodivergente e do Emociona.ai.

Para agendar uma avaliação clínica, fale pelo contato ou conheça mais sobre o trabalho do Dr. Diego.

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