Voltar

Como vive uma pessoa com depressão: sintomas e tratamento

Publicado em Última revisão clínica em Dr. Diego Tinoco
Como vive uma pessoa com depressão: sintomas e tratamento

Como vive uma pessoa com depressão

A depressão é uma das condições de saúde mental mais prevalentes e incapacitantes em escala global. Segundo o World Mental Health Report 2022 da Organização Mundial da Saúde, mais de 280 milhões de pessoas convivem com depressão no mundo.1 O Brasil aparece, em séries históricas da OMS, como o país com maior prevalência de depressão da América Latina, com estimativa próxima a 5,8% da população adulta.2

Este artigo descreve como o transtorno depressivo maior se manifesta no cotidiano e o que a evidência científica indica sobre os tratamentos com maior chance de funcionar.

O que é depressão — definição clínica

O Transtorno Depressivo Maior (TDM) é uma condição clínica caracterizada por alterações persistentes de humor, energia, cognição e funcionamento. O DSM-5-TR (códigos 296.2x / 296.3x) e a CID-11 (6A70 a 6A72) descrevem critérios essencialmente compatíveis.3,4

Para o diagnóstico de episódio depressivo maior pelo DSM-5-TR, são necessários pelo menos cinco dos sintomas a seguir, presentes pela maior parte do dia, na maioria dos dias, por no mínimo duas semanas, sendo que ao menos um deles deve ser humor deprimido ou perda de interesse/prazer:3

  • Humor deprimido;
  • Perda acentuada de interesse ou prazer (anedonia);
  • Alteração significativa de peso ou apetite;
  • Insônia ou hipersonia;
  • Agitação ou retardo psicomotor;
  • Fadiga ou perda de energia;
  • Sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva/inapropriada;
  • Dificuldade de concentração ou indecisão;
  • Pensamentos recorrentes de morte ou ideação suicida.

Os sintomas precisam causar prejuízo clinicamente significativo e não ser melhor explicados por outra condição clínica ou uso de substâncias.

Sintomas no dia a dia

Dimensão emocional

Sentimentos persistentes de tristeza, vazio, irritabilidade e perda de prazer caracterizam a experiência subjetiva. É comum a queixa de "não sentir nada", "estar em um vidro" ou "ver tudo em cinza". Não se trata de tristeza pontual diante de uma perda — é um estado sustentado, presente por semanas ou meses.

Dimensão física

A depressão tem manifestações corporais frequentes:

  • Fadiga crônica, mesmo após dormir;
  • Dores difusas (cabeça, costas, musculatura) sem causa estrutural identificável;
  • Alteração de apetite (perda ou aumento, frequentemente com mudança de peso);
  • Insônia (especialmente despertar precoce) ou hipersonia;
  • Lentificação da fala, dos movimentos e do raciocínio.

Dimensão cognitiva

Frequentemente subestimada, a alteração cognitiva é um dos sintomas mais incapacitantes:

  • Dificuldade de concentração ("névoa mental");
  • Indecisão diante de escolhas simples;
  • Pensamentos repetitivos negativos (ruminação);
  • Memória de trabalho prejudicada;
  • Em casos graves, distorções cognitivas marcadas (desesperança, culpa desproporcional).5

Impacto social e profissional

Isolamento e relações

O isolamento social é tanto sintoma quanto fator de manutenção da depressão. Pessoas em episódio depressivo tendem a evitar contato — não por falta de interesse pelos outros, mas pela combinação de exaustão, anedonia e percepção distorcida de inadequação. Isso, por sua vez, reduz oportunidades de reforço positivo e perpetua o quadro.

Relações próximas são afetadas: estudos longitudinais mostram impacto significativo na vida conjugal e no desenvolvimento emocional de filhos de pais com depressão não tratada.6

Trabalho e estudo

A depressão é uma das principais causas globais de incapacidade laboral, segundo a OMS.1 No ambiente de trabalho, costuma se manifestar como:

  • presenteísmo: estar presente, mas com produtividade reduzida;
  • Maior frequência de erros;
  • Dificuldade de iniciar e concluir tarefas;
  • Faltas e afastamentos.

No Brasil, dados do INSS apontam aumento expressivo de afastamentos por transtornos mentais nos últimos anos, com depressão e ansiedade entre as principais causas.

Tratamento com base em evidência

O tratamento eficaz da depressão é tipicamente multimodal. Diretrizes internacionais (NICE NG222, APA, CANMAT) convergem em alguns pilares:7,8

1. Farmacoterapia

A meta-análise em rede de Cipriani e colaboradores (Lancet, 2018), que avaliou 21 antidepressivos em 522 ensaios clínicos, confirmou que todos os antidepressivos estudados foram superiores ao placebo em depressão moderada a grave.9 Principais classes em uso clínico:

  • ISRS: sertralina, fluoxetina, escitalopram, paroxetina, citalopram;
  • IRSN: venlafaxina, duloxetina;
  • Outros: bupropiona, mirtazapina, vortioxetina, agomelatina.

O efeito antidepressivo costuma ser perceptível entre 2 e 6 semanas. A suspensão da medicação deve ser feita gradualmente e sempre com orientação médica, pelo risco de síndrome de descontinuação.

2. Psicoterapia

A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é a abordagem com maior volume de evidência para depressão, com tamanhos de efeito comparáveis à farmacoterapia em quadros leves a moderados.10 Outras abordagens com evidência incluem terapia interpessoal (TIP), psicoterapia psicodinâmica de tempo limitado e terapia de ativação comportamental.

Em depressão moderada a grave, a combinação de farmacoterapia + psicoterapia tende a apresentar melhores resultados do que cada uma isoladamente.7

3. Exercício físico

A meta-análise de Noetel e colaboradores (BMJ, 2024), com mais de 14 mil participantes em 218 ensaios clínicos randomizados, mostrou que caminhada, corrida, treino de força, yoga e dança têm efeito robusto sobre sintomas depressivos, comparável a tratamentos de primeira linha em alguns subgrupos.11

A intensidade moderada a vigorosa apresentou efeitos maiores, mas atividades leves já mostraram benefício. Exercício não substitui tratamento medicamentoso ou psicoterápico em casos moderados a graves — mas é uma intervenção complementar com forte evidência.

4. Alimentação

Padrões alimentares ricos em vegetais, frutas, peixes, oleaginosas e gorduras boas (perfil mediterrâneo) estão associados a menor incidência de depressão em estudos prospectivos.12 O ensaio SMILES, um dos primeiros estudos randomizados na área, mostrou efeito clínico significativo de uma intervenção nutricional como adjuvante no tratamento de depressão.13

Por outro lado, alto consumo de ultraprocessados tem sido associado a maior risco depressivo em coortes prospectivas.

5. Sono

A relação entre sono e depressão é bidirecional: insônia é fator de risco para depressão e, ao mesmo tempo, sintoma frequente do quadro depressivo. Tratar a insônia, quando presente, melhora desfechos do tratamento depressivo.14

Estratégias práticas:

  • Horários consistentes para deitar e acordar;
  • Reduzir telas na hora antes de dormir;
  • Quarto escuro, silencioso e fresco;
  • Evitar cafeína após o meio da tarde;
  • Não usar a cama como espaço de trabalho.

Sinais de alerta — quando procurar ajuda imediata

Procure ajuda imediatamente se houver:

  • Ideação suicida ou planejamento;
  • Sintomas psicóticos (delírios, alucinações);
  • Incapacidade de cuidar de si (alimentação, higiene, segurança);
  • Uso abusivo de álcool ou outras substâncias somado ao quadro.

Recursos disponíveis 24h: SAMU 192, CVV 188 (gratuito, sigiloso) ou o pronto-socorro mais próximo.

Perguntas frequentes

A depressão tem cura?

Mais apropriado falar em remissão: com tratamento adequado, a maioria das pessoas apresenta melhora significativa e retorna ao funcionamento prévio. Alguns têm episódio único e não recorrem; outros têm quadro recorrente, que pode exigir tratamento de manutenção por períodos mais longos. O termo "cura definitiva" não é o mais preciso clinicamente.

Quanto tempo dura o tratamento?

Em um primeiro episódio respondido bem, recomenda-se manutenção da medicação por 6 a 12 meses após a remissão dos sintomas, conforme diretrizes internacionais.7 Em casos recorrentes ou de maior gravidade, o tratamento pode se estender por anos.

Depressão é "frescura"?

Não. A depressão é uma condição clínica com correlatos biológicos, psicológicos e sociais identificáveis. Estudos de neuroimagem mostram alterações em estrutura e funcionamento cerebral, ainda que esses achados não permitam, hoje, diagnóstico por imagem. O sofrimento é real, mensurável e tratável.15

É possível tratar depressão sem medicamento?

Em casos leves, psicoterapia, exercício e mudanças de estilo de vida podem ser suficientes. Casos moderados a graves, ou com risco suicida, costumam exigir tratamento farmacológico. A decisão é sempre individualizada — a avaliação psiquiátrica orienta o melhor caminho.

Aviso importante

Este conteúdo é educacional e não substitui consulta médica individual. Diagnóstico, prescrição e ajuste de tratamento exigem avaliação clínica, conforme regulamentação do CFM. Se você se identificou com os sintomas, considere agendar uma avaliação ou conhecer mais sobre o atendimento em depressão.

Referências

  1. World Health Organization. World Mental Health Report: Transforming mental health for all. Genebra: OMS; 2022. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240049338
  2. World Health Organization. Depression and other common mental disorders: global health estimates. Genebra: OMS; 2017. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/depression-global-health-estimates
  3. American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5th ed., Text Revision (DSM-5-TR). Washington, DC: APA Publishing; 2022. DOI: 10.1176/appi.books.9780890425787
  4. World Health Organization. ICD-11 for Mortality and Morbidity Statistics. Genebra: OMS; 2022. Disponível em: https://icd.who.int/
  5. Rock PL, Roiser JP, Riedel WJ, Blackwell AD. Cognitive impairment in depression: a systematic review and meta-analysis. Psychol Med. 2014;44(10):2029-2040. DOI: 10.1017/S0033291713002535
  6. Goodman SH, Rouse MH, Connell AM, Broth MR, Hall CM, Heyward D. Maternal depression and child psychopathology: a meta-analytic review. Clin Child Fam Psychol Rev. 2011;14(1):1-27. DOI: 10.1007/s10567-010-0080-1
  7. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Depression in adults: treatment and management (NG222). Londres: NICE; 2022. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/ng222
  8. Lam RW, Kennedy SH, Adams C, et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) 2023 Update on Clinical Guidelines for Management of Major Depressive Disorder in Adults. Can J Psychiatry. 2024;69(9):641-687. DOI: 10.1177/07067437241245384
  9. Cipriani A, Furukawa TA, Salanti G, et al. Comparative efficacy and acceptability of 21 antidepressant drugs for the acute treatment of adults with major depressive disorder: a systematic review and network meta-analysis. Lancet. 2018;391(10128):1357-1366. DOI: 10.1016/S0140-6736(17)32802-7
  10. Cuijpers P, Karyotaki E, Eckshtain D, et al. Psychotherapy for depression across different age groups: a systematic review and meta-analysis. JAMA Psychiatry. 2020;77(7):694-702. DOI: 10.1001/jamapsychiatry.2020.0164
  11. Noetel M, Sanders T, Gallardo-Gómez D, et al. Effect of exercise for depression: systematic review and network meta-analysis of randomised controlled trials. BMJ. 2024;384:e075847. DOI: 10.1136/bmj-2023-075847
  12. Lassale C, Batty GD, Baghdadli A, et al. Healthy dietary indices and risk of depressive outcomes: a systematic review and meta-analysis of observational studies. Mol Psychiatry. 2019;24(7):965-986. DOI: 10.1038/s41380-018-0237-8
  13. Jacka FN, O'Neil A, Opie R, et al. A randomised controlled trial of dietary improvement for adults with major depression (the 'SMILES' trial). BMC Med. 2017;15(1):23. DOI: 10.1186/s12916-017-0791-y
  14. Freeman D, Sheaves B, Waite F, Harvey AG, Harrison PJ. Sleep disturbance and psychiatric disorders. Lancet Psychiatry. 2020;7(7):628-637. DOI: 10.1016/S2215-0366(20)30136-X
  15. Schmaal L, Veltman DJ, van Erp TG, et al. Subcortical brain alterations in major depressive disorder: findings from the ENIGMA Major Depressive Disorder working group. Mol Psychiatry. 2016;21(6):806-812. DOI: 10.1038/mp.2015.69

Sobre o autor

Dr. Diego Tinoco Rodrigues · CRM-MG 58241 · RQE 37921

Médico psiquiatra com residência médica pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG). Atende em consultório no bairro Santa Tereza, em Belo Horizonte, e por telemedicina para todo o Brasil — com foco em TDAH em adultos, autismo, ansiedade e depressão, em uma abordagem clínica baseada em evidência e escuta humanizada.

Autor do livro Mesmo quem não fala muito tem muito a dizer — sobre silêncio, sensibilidade e o que existe antes da fala. Idealizador do Portal Neurodivergente e do Emociona.ai.

Para agendar uma avaliação clínica, fale pelo contato ou conheça mais sobre o trabalho do Dr. Diego.

Leia também

Como vive uma pessoa com depressão: sintomas e tratamento | Dr. Diego Tinoco