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História do TDAH: dos primeiros relatos clínicos ao DSM-5-TR

Publicado em Última revisão clínica em Dr. Diego Tinoco
História do TDAH: dos primeiros relatos clínicos ao DSM-5-TR

História do TDAH: do "inquieto" de 1798 ao DSM-5-TR

O TDAH não é "moda" nem "invenção recente". A primeira descrição clínica reconhecida data de mais de 220 anos, e a evolução do conceito acompanha o desenvolvimento da própria psiquiatria moderna. Este artigo traça os marcos principais — com fontes verificáveis — para situar o leitor diante de um quadro que tem história longa, evidência sólida e impacto real.

1798 — Alexander Crichton e a "fidget" da atenção

O médico escocês Alexander Crichton, em sua obra An Inquiry into the Nature and Origin of Mental Derangement (Londres, 1798), descreveu uma "inquietação mórbida" (em inglês, "mental restlessness") em que pessoas eram incapazes de manter atenção sustentada em um único objeto. A descrição é notavelmente similar aos critérios contemporâneos para TDAH com predomínio de desatenção.1

1845 — Heinrich Hoffmann e "Fidgety Phil"

O psiquiatra alemão Heinrich Hoffmann, autor do livro infantil Der Struwwelpeter (Pedro Cabeleireiro), descreveu personagens como "Zappel-Philipp" (Filipe Mexedor) e "Hans Guck-in-die-Luft" (João Olha-as-Nuvens) — figuras que retratam exatamente o que hoje chamamos de hiperatividade-impulsividade e desatenção, respectivamente. Foi publicação para crianças, mas Hoffmann era médico, e suas observações refletiam o que via na clínica.2

1902 — George Still e "defective moral control"

O pediatra britânico George Frederick Still, em série de três palestras no Royal College of Physicians (publicadas em The Lancet), descreveu 43 crianças com "um defeito anormal de controle moral" — não no sentido ético, mas de capacidade de regular comportamento conforme normas sociais. Identificou impulsividade, agressividade e dificuldade com atenção, e propôs base biológica para o quadro. Esse trabalho costuma ser citado como a primeira descrição médica sistemática do que hoje é o TDAH.3

1937 — A descoberta acidental dos estimulantes

O médico americano Charles Bradley, ao tratar crianças com cefaleia em uma clínica residencial em Providence (EUA), administrou benzedrina (anfetamina) acreditando que estimularia a produção de líquor. O efeito sobre cefaleia foi modesto — mas os professores notaram que as crianças passaram a ter desempenho marcadamente melhor em aritmética e melhor comportamento em sala. Bradley publicou o achado em American Journal of Psychiatry: o efeito paradoxalmente calmante dos estimulantes em crianças com problemas de atenção.4 Esse foi o início da farmacoterapia para o que viria a ser chamado de TDAH.

1956-1968 — O metilfenidato e o DSM-II

O metilfenidato foi sintetizado em 1944 e introduzido clinicamente nos anos 1950, ampliando o arsenal terapêutico. Em 1968, o DSM-II reconheceu formalmente uma entidade chamada "Reação Hipercinética da Infância" — a primeira aparição oficial em manual diagnóstico, focada na dimensão motora (hiperatividade).

1980 — O DSM-III e o "ADD"

O DSM-III, publicado em 1980, foi um marco. Renomeou o quadro para "Transtorno do Déficit de Atenção" (Attention Deficit Disorder — ADD), com ou sem hiperatividade. Por primeira vez, o critério central passou a ser a atenção, não a agitação motora — abrindo espaço para o reconhecimento da forma desatenta, especialmente em meninas e adultos que não exibiam o quadro estereotipado.5

1987-1994 — DSM-III-R e DSM-IV: consolidação

O DSM-III-R (1987) reuniu desatenção e hiperatividade sob a sigla atual "ADHD" (TDAH). O DSM-IV (1994) consolidou os três subtipos: predominantemente desatento, predominantemente hiperativo-impulsivo, e combinado. Esse framework ainda orienta a clínica.

1990s — Reconhecimento do TDAH no adulto

Apesar das observações antigas, o TDAH no adulto só recebeu validação consistente na literatura científica nos anos 1990, principalmente com os trabalhos de Russell Barkley, Joseph Biederman e colaboradores. Antes disso, prevalecia o mito de que TDAH "desaparecia na adolescência".6 Hoje, sabemos que persiste em 2,5% a 5% da população adulta.7

2013 — DSM-5: TDAH adulto formalizado

O DSM-5 (2013) explicitou os critérios para diagnóstico em adultos:

  • Critério reduzido de 6 para 5 sintomas em adultos (eram exigidos 6 em crianças);
  • Idade de início ampliada de 7 para 12 anos;
  • Necessidade de sintomas em dois ou mais contextos.

Essas mudanças formalizaram décadas de evidência clínica.8

2022 — DSM-5-TR e CID-11

O DSM-5-TR (American Psychiatric Association, 2022) mantém os critérios do DSM-5 com refinamentos textuais. A CID-11 (OMS, 2022) usa o código 6A05 e adota critérios essencialmente compatíveis. Os dois sistemas, hoje, têm grande convergência.8,9

O que mudou e o que continua igual

O TDAH evoluiu como conceito clínico, mas algumas coisas permanecem:

  • A observação central — dificuldade com atenção sustentada, regulação de impulsos, agitação — está presente desde 1798;
  • A natureza neurobiológica (não moral) foi defendida por Still em 1902 e confirmada por estudos modernos de neuroimagem;
  • A resposta ao tratamento medicamentoso, descoberta por acaso em 1937, segue sendo a evidência farmacológica mais consistente da psiquiatria infantil/adulta.

O TDAH não foi inventado pelo século XXI — apenas passou a ser melhor reconhecido, especialmente em adultos e em mulheres, populações historicamente subdiagnosticadas.

Aviso importante

Este conteúdo é educacional e não substitui consulta médica individual. O diagnóstico de TDAH exige avaliação clínica completa, conforme regulamentação do CFM. Para agendar uma avaliação, conheça mais sobre o atendimento em TDAH adulto.

Em emergência (ideação suicida, crise psíquica): SAMU 192, CVV 188 (24h, gratuito) ou pronto-socorro mais próximo.

Referências

  1. Palmer ED, Finger S. An early description of ADHD (inattentive subtype): Dr Alexander Crichton and "Mental Restlessness" (1798). Child Psychol Psychiatry Rev. 2001;6(2):66-73. DOI: 10.1017/S1360641701002507
  2. Thome J, Jacobs KA. Attention deficit hyperactivity disorder (ADHD) in a 19th century children's book. Eur Psychiatry. 2004;19(5):303-306. DOI: 10.1016/j.eurpsy.2004.05.004
  3. Still GF. Some abnormal psychical conditions in children. Lancet. 1902;1:1008-1012, 1077-1082, 1163-1168.
  4. Bradley C. The behavior of children receiving Benzedrine. Am J Psychiatry. 1937;94(3):577-585. DOI: 10.1176/ajp.94.3.577
  5. Lange KW, Reichl S, Lange KM, Tucha L, Tucha O. The history of attention deficit hyperactivity disorder. Atten Defic Hyperact Disord. 2010;2(4):241-255. DOI: 10.1007/s12402-010-0045-8
  6. Barkley RA, Murphy KR, Fischer M. ADHD in Adults: What the Science Says. New York: Guilford Press; 2008.
  7. Polanczyk GV, Willcutt EG, Salum GA, Kieling C, Rohde LA. ADHD prevalence estimates across three decades: an updated systematic review and meta-regression analysis. Int J Epidemiol. 2014;43(2):434-442. DOI: 10.1093/ije/dyt261
  8. American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5th ed., Text Revision (DSM-5-TR). Washington, DC: APA Publishing; 2022. DOI: 10.1176/appi.books.9780890425787
  9. World Health Organization. ICD-11 for Mortality and Morbidity Statistics. Geneva: WHO; 2022. Disponível em: https://icd.who.int/

Sobre o autor

Dr. Diego Tinoco Rodrigues · CRM-MG 58241 · RQE 37921

Médico psiquiatra com residência médica pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG). Atende em consultório no bairro Santa Tereza, em Belo Horizonte, e por telemedicina para todo o Brasil — com foco em TDAH em adultos, autismo, ansiedade e depressão, em uma abordagem clínica baseada em evidência e escuta humanizada.

Autor do livro Mesmo quem não fala muito tem muito a dizer — sobre silêncio, sensibilidade e o que existe antes da fala. Idealizador do Portal Neurodivergente e do Emociona.ai.

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