Por que não consigo dormir? Insônia: causas e tratamento

Por que não consigo dormir? Causas e o que fazer
A dificuldade para dormir é uma das queixas mais comuns no consultório. Estima-se que cerca de 30% a 40% da população adulta apresente sintomas de insônia em algum momento do ano, e que 10% a 15% preencham critérios para transtorno de insônia crônica.1,2
Este artigo descreve os tipos de insônia, as causas mais frequentes — incluindo fatores ambientais, médicos e psiquiátricos — e o que a evidência aponta como caminho de tratamento.
Tipos de insônia
Do ponto de vista clínico, a insônia costuma ser classificada por momento de aparecimento ao longo da noite:
- Insônia inicial: dificuldade em iniciar o sono (a pessoa fica de minutos a horas tentando "pegar no sono");
- Insônia de manutenção: a pessoa adormece, mas desperta durante a noite e tem dificuldade para voltar a dormir;
- Insônia terminal: despertar precoce, antes do horário desejado, sem conseguir retomar o sono;
- Insônia mista: combinação de mais de um padrão.
O padrão importa porque oferece pistas sobre causas: insônia inicial é mais comum em ansiedade; insônia terminal sugere depressão; despertares frequentes podem indicar apneia do sono ou uso de álcool, por exemplo.3
Critérios diagnósticos do transtorno de insônia
O transtorno de insônia (DSM-5-TR 780.52; CID-11 7A00) requer:4,5
- Dificuldade para iniciar, manter ou retornar ao sono, com prejuízo no funcionamento diurno;
- Sintomas em pelo menos 3 noites por semana;
- Duração de pelo menos 3 meses para insônia crônica (períodos mais curtos caracterizam insônia aguda);
- Não atribuíveis exclusivamente a outra condição clínica, uso de substâncias ou outro transtorno do sono.
Causas ambientais e comportamentais
Em muitos casos, a dificuldade de dormir não está associada a uma condição clínica específica, mas a fatores do estilo de vida contemporâneo:
Uso de telas e luz azul
A exposição à luz azul de telas (celular, computador, TV) à noite suprime a secreção de melatonina, hormônio que sinaliza ao cérebro que é hora de dormir. Estudos controlados mostram que o uso de dispositivos eletrônicos antes de dormir atrasa o início do sono e reduz a qualidade do sono REM.6
Estresse crônico e excesso de trabalho
O modelo de trabalho contemporâneo — com expectativa de disponibilidade constante, especialmente em home office — tem sido associado a piora dos parâmetros de sono em estudos pós-2020.7 Trabalhar até tarde, sem fronteiras claras entre horário de trabalho e descanso, tende a manter o sistema nervoso em estado de ativação.
Cafeína, nicotina e álcool
- Cafeína: meia-vida de 5 a 7 horas, com efeito estimulante prolongado. Consumo após o meio da tarde pode prejudicar o sono mesmo em quem se considera "tolerante";
- Nicotina: estimulante; fumantes têm maior dificuldade para iniciar e manter o sono;
- Álcool: ao contrário da crença popular, piora a qualidade do sono. Apesar do efeito sedativo inicial, fragmenta o sono na segunda metade da noite e reduz o sono REM.8
Pouca exposição à luz natural
O ciclo circadiano é regulado, em grande parte, pela exposição à luz solar durante o dia. Rotinas predominantemente em ambientes fechados, com baixa luminosidade matinal, contribuem para desregulação do ciclo sono-vigília.
Causas médicas e psiquiátricas
Transtornos psiquiátricos
Várias condições psiquiátricas têm a insônia como sintoma frequente ou critério diagnóstico:
- Transtorno depressivo maior: insônia terminal é particularmente sugestiva, embora também ocorra hipersonia;
- Transtorno de ansiedade generalizada: insônia inicial é típica, com ruminação noturna;
- Transtorno bipolar: em episódios de mania ou hipomania, há redução marcada da necessidade de sono;
- Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT): pesadelos recorrentes, insônia, sono fragmentado;
- Transtorno do uso de substâncias: tanto durante o uso quanto na abstinência.
Outras condições médicas
- Apneia obstrutiva do sono: pausas respiratórias durante o sono, com despertares frequentes e cansaço diurno. Diagnóstico requer polissonografia;
- Síndrome das pernas inquietas: necessidade de mover as pernas ao deitar, geralmente associada a desconforto;
- Hipertireoidismo;
- Dor crônica;
- Refluxo gastroesofágico;
- Hipertrofia prostática (em homens, com despertares para urinar).
Consequências da insônia crônica
Os efeitos da privação crônica de sono se acumulam:
Curto prazo
- Sonolência e fadiga diurna;
- Dificuldade de concentração e memória;
- Maior irritabilidade e reatividade emocional;
- Redução de reflexos (com aumento do risco de acidentes).
Longo prazo
A insônia crônica é fator de risco independente para diversas condições, segundo evidências de estudos longitudinais e meta-análises:9
- Doenças cardiovasculares e hipertensão;
- Diabetes tipo 2;
- Obesidade;
- Depressão (relação bidirecional);
- Comprometimento cognitivo;
- Maior risco de mortalidade por todas as causas.
Tratamento: o que a evidência sustenta
Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (TCC-I)
A TCC-I é o tratamento de primeira linha para insônia crônica, segundo diretrizes da American Academy of Sleep Medicine (AASM) e da European Sleep Research Society.10,11 Em meta-análises, mostra eficácia semelhante a medicações hipnóticas a curto prazo e superior no longo prazo, com efeitos duradouros após o fim do tratamento.
Inclui componentes como restrição de tempo na cama, controle de estímulos, reestruturação cognitiva sobre o sono, técnicas de relaxamento e psicoeducação.
Higiene do sono
Por si só, a higiene do sono tem efeito modesto — mas é base de qualquer tratamento. Principais práticas:
- Horários consistentes para dormir e acordar, inclusive nos finais de semana;
- Reduzir telas pelo menos 1 hora antes de dormir;
- Quarto escuro, silencioso e fresco;
- Limitar uso da cama a dormir e atividade sexual;
- Sair da cama se não conseguir dormir em 20 minutos;
- Evitar cafeína após o meio da tarde;
- Exposição à luz natural pela manhã;
- Atividade física regular, evitando intensa nas 2 horas antes de dormir.
Farmacoterapia
Quando indicada, costuma ser complemento e não substituto da TCC-I. Opções com perfis distintos incluem:
- Antidepressivos sedativos em baixa dose (trazodona, mirtazapina, doxepina);
- Agonistas de melatonina;
- Melatonina, especialmente útil em distúrbios do ritmo circadiano;
- Hipnóticos não-benzodiazepínicos (zolpidem, zopiclona) — uso pontual, por riscos com uso prolongado;
- Benzodiazepínicos não são recomendados como primeira linha para uso contínuo.11
A escolha exige avaliação médica individualizada — não há protocolo único.
Quando procurar ajuda
Procure avaliação médica se:
- A insônia persiste por mais de 3 a 4 semanas;
- Você sente prejuízo significativo no funcionamento diurno;
- Suspeita de apneia (ronco intenso, pausas respiratórias relatadas, sonolência diurna marcada);
- Há sintomas associados de ansiedade, depressão ou outro quadro psiquiátrico;
- Há ideação suicida — nesse caso, busque ajuda imediata: SAMU 192, CVV 188 (24h, gratuito) ou pronto-socorro.
Aviso importante
Este conteúdo é educacional e não substitui consulta médica individual. Diagnóstico e tratamento da insônia exigem avaliação clínica, conforme regulamentação do CFM. Para agendar uma avaliação, conheça mais sobre os atendimentos oferecidos.
Referências
- Ohayon MM. Epidemiology of insomnia: what we know and what we still need to learn. Sleep Med Rev. 2002;6(2):97-111. DOI: 10.1053/smrv.2002.0186
- Morin CM, Jarrin DC. Epidemiology of insomnia: prevalence, course, risk factors, and public health burden. Sleep Med Clin. 2022;17(2):173-191. DOI: 10.1016/j.jsmc.2022.03.003
- Buysse DJ. Insomnia. JAMA. 2013;309(7):706-716. DOI: 10.1001/jama.2013.193
- American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5th ed., Text Revision (DSM-5-TR). Washington, DC: APA Publishing; 2022. DOI: 10.1176/appi.books.9780890425787
- World Health Organization. ICD-11 for Mortality and Morbidity Statistics. Genebra: OMS; 2022. Disponível em: https://icd.who.int/
- Chang AM, Aeschbach D, Duffy JF, Czeisler CA. Evening use of light-emitting eReaders negatively affects sleep, circadian timing, and next-morning alertness. Proc Natl Acad Sci USA. 2015;112(4):1232-1237. DOI: 10.1073/pnas.1418490112
- Jahrami H, BaHammam AS, Bragazzi NL, Saif Z, Faris M, Vitiello MV. Sleep problems during the COVID-19 pandemic by population: a systematic review and meta-analysis. J Clin Sleep Med. 2021;17(2):299-313. DOI: 10.5664/jcsm.8930
- Ebrahim IO, Shapiro CM, Williams AJ, Fenwick PB. Alcohol and sleep I: effects on normal sleep. Alcohol Clin Exp Res. 2013;37(4):539-549. DOI: 10.1111/acer.12006
- Itani O, Jike M, Watanabe N, Kaneita Y. Short sleep duration and health outcomes: a systematic review, meta-analysis, and meta-regression. Sleep Med. 2017;32:246-256. DOI: 10.1016/j.sleep.2016.08.006
- Edinger JD, Arnedt JT, Bertisch SM, et al. Behavioral and psychological treatments for chronic insomnia disorder in adults: an American Academy of Sleep Medicine clinical practice guideline. J Clin Sleep Med. 2021;17(2):255-262. DOI: 10.5664/jcsm.8986
- Riemann D, Espie CA, Altena E, et al. The European Insomnia Guideline: an update on the diagnosis and treatment of insomnia 2023. J Sleep Res. 2023;32(6):e14035. DOI: 10.1111/jsr.14035
Sobre o autor
Dr. Diego Tinoco Rodrigues · CRM-MG 58241 · RQE 37921
Médico psiquiatra com residência médica pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG). Atende em consultório no bairro Santa Tereza, em Belo Horizonte, e por telemedicina para todo o Brasil — com foco em TDAH em adultos, autismo, ansiedade e depressão, em uma abordagem clínica baseada em evidência e escuta humanizada.
Autor do livro Mesmo quem não fala muito tem muito a dizer — sobre silêncio, sensibilidade e o que existe antes da fala. Idealizador do Portal Neurodivergente e do Emociona.ai.
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