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Por que não consigo dormir? Insônia: causas e tratamento

Publicado em Última revisão clínica em Dr. Diego Tinoco
Por que não consigo dormir? Insônia: causas e tratamento

Por que não consigo dormir? Causas e o que fazer

A dificuldade para dormir é uma das queixas mais comuns no consultório. Estima-se que cerca de 30% a 40% da população adulta apresente sintomas de insônia em algum momento do ano, e que 10% a 15% preencham critérios para transtorno de insônia crônica.1,2

Este artigo descreve os tipos de insônia, as causas mais frequentes — incluindo fatores ambientais, médicos e psiquiátricos — e o que a evidência aponta como caminho de tratamento.

Tipos de insônia

Do ponto de vista clínico, a insônia costuma ser classificada por momento de aparecimento ao longo da noite:

  • Insônia inicial: dificuldade em iniciar o sono (a pessoa fica de minutos a horas tentando "pegar no sono");
  • Insônia de manutenção: a pessoa adormece, mas desperta durante a noite e tem dificuldade para voltar a dormir;
  • Insônia terminal: despertar precoce, antes do horário desejado, sem conseguir retomar o sono;
  • Insônia mista: combinação de mais de um padrão.

O padrão importa porque oferece pistas sobre causas: insônia inicial é mais comum em ansiedade; insônia terminal sugere depressão; despertares frequentes podem indicar apneia do sono ou uso de álcool, por exemplo.3

Critérios diagnósticos do transtorno de insônia

O transtorno de insônia (DSM-5-TR 780.52; CID-11 7A00) requer:4,5

  • Dificuldade para iniciar, manter ou retornar ao sono, com prejuízo no funcionamento diurno;
  • Sintomas em pelo menos 3 noites por semana;
  • Duração de pelo menos 3 meses para insônia crônica (períodos mais curtos caracterizam insônia aguda);
  • Não atribuíveis exclusivamente a outra condição clínica, uso de substâncias ou outro transtorno do sono.

Causas ambientais e comportamentais

Em muitos casos, a dificuldade de dormir não está associada a uma condição clínica específica, mas a fatores do estilo de vida contemporâneo:

Uso de telas e luz azul

A exposição à luz azul de telas (celular, computador, TV) à noite suprime a secreção de melatonina, hormônio que sinaliza ao cérebro que é hora de dormir. Estudos controlados mostram que o uso de dispositivos eletrônicos antes de dormir atrasa o início do sono e reduz a qualidade do sono REM.6

Estresse crônico e excesso de trabalho

O modelo de trabalho contemporâneo — com expectativa de disponibilidade constante, especialmente em home office — tem sido associado a piora dos parâmetros de sono em estudos pós-2020.7 Trabalhar até tarde, sem fronteiras claras entre horário de trabalho e descanso, tende a manter o sistema nervoso em estado de ativação.

Cafeína, nicotina e álcool

  • Cafeína: meia-vida de 5 a 7 horas, com efeito estimulante prolongado. Consumo após o meio da tarde pode prejudicar o sono mesmo em quem se considera "tolerante";
  • Nicotina: estimulante; fumantes têm maior dificuldade para iniciar e manter o sono;
  • Álcool: ao contrário da crença popular, piora a qualidade do sono. Apesar do efeito sedativo inicial, fragmenta o sono na segunda metade da noite e reduz o sono REM.8

Pouca exposição à luz natural

O ciclo circadiano é regulado, em grande parte, pela exposição à luz solar durante o dia. Rotinas predominantemente em ambientes fechados, com baixa luminosidade matinal, contribuem para desregulação do ciclo sono-vigília.

Causas médicas e psiquiátricas

Transtornos psiquiátricos

Várias condições psiquiátricas têm a insônia como sintoma frequente ou critério diagnóstico:

  • Transtorno depressivo maior: insônia terminal é particularmente sugestiva, embora também ocorra hipersonia;
  • Transtorno de ansiedade generalizada: insônia inicial é típica, com ruminação noturna;
  • Transtorno bipolar: em episódios de mania ou hipomania, há redução marcada da necessidade de sono;
  • Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT): pesadelos recorrentes, insônia, sono fragmentado;
  • Transtorno do uso de substâncias: tanto durante o uso quanto na abstinência.

Outras condições médicas

  • Apneia obstrutiva do sono: pausas respiratórias durante o sono, com despertares frequentes e cansaço diurno. Diagnóstico requer polissonografia;
  • Síndrome das pernas inquietas: necessidade de mover as pernas ao deitar, geralmente associada a desconforto;
  • Hipertireoidismo;
  • Dor crônica;
  • Refluxo gastroesofágico;
  • Hipertrofia prostática (em homens, com despertares para urinar).

Consequências da insônia crônica

Os efeitos da privação crônica de sono se acumulam:

Curto prazo

  • Sonolência e fadiga diurna;
  • Dificuldade de concentração e memória;
  • Maior irritabilidade e reatividade emocional;
  • Redução de reflexos (com aumento do risco de acidentes).

Longo prazo

A insônia crônica é fator de risco independente para diversas condições, segundo evidências de estudos longitudinais e meta-análises:9

  • Doenças cardiovasculares e hipertensão;
  • Diabetes tipo 2;
  • Obesidade;
  • Depressão (relação bidirecional);
  • Comprometimento cognitivo;
  • Maior risco de mortalidade por todas as causas.

Tratamento: o que a evidência sustenta

Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (TCC-I)

A TCC-I é o tratamento de primeira linha para insônia crônica, segundo diretrizes da American Academy of Sleep Medicine (AASM) e da European Sleep Research Society.10,11 Em meta-análises, mostra eficácia semelhante a medicações hipnóticas a curto prazo e superior no longo prazo, com efeitos duradouros após o fim do tratamento.

Inclui componentes como restrição de tempo na cama, controle de estímulos, reestruturação cognitiva sobre o sono, técnicas de relaxamento e psicoeducação.

Higiene do sono

Por si só, a higiene do sono tem efeito modesto — mas é base de qualquer tratamento. Principais práticas:

  • Horários consistentes para dormir e acordar, inclusive nos finais de semana;
  • Reduzir telas pelo menos 1 hora antes de dormir;
  • Quarto escuro, silencioso e fresco;
  • Limitar uso da cama a dormir e atividade sexual;
  • Sair da cama se não conseguir dormir em 20 minutos;
  • Evitar cafeína após o meio da tarde;
  • Exposição à luz natural pela manhã;
  • Atividade física regular, evitando intensa nas 2 horas antes de dormir.

Farmacoterapia

Quando indicada, costuma ser complemento e não substituto da TCC-I. Opções com perfis distintos incluem:

  • Antidepressivos sedativos em baixa dose (trazodona, mirtazapina, doxepina);
  • Agonistas de melatonina;
  • Melatonina, especialmente útil em distúrbios do ritmo circadiano;
  • Hipnóticos não-benzodiazepínicos (zolpidem, zopiclona) — uso pontual, por riscos com uso prolongado;
  • Benzodiazepínicos não são recomendados como primeira linha para uso contínuo.11

A escolha exige avaliação médica individualizada — não há protocolo único.

Quando procurar ajuda

Procure avaliação médica se:

  • A insônia persiste por mais de 3 a 4 semanas;
  • Você sente prejuízo significativo no funcionamento diurno;
  • Suspeita de apneia (ronco intenso, pausas respiratórias relatadas, sonolência diurna marcada);
  • Há sintomas associados de ansiedade, depressão ou outro quadro psiquiátrico;
  • Há ideação suicida — nesse caso, busque ajuda imediata: SAMU 192, CVV 188 (24h, gratuito) ou pronto-socorro.

Aviso importante

Este conteúdo é educacional e não substitui consulta médica individual. Diagnóstico e tratamento da insônia exigem avaliação clínica, conforme regulamentação do CFM. Para agendar uma avaliação, conheça mais sobre os atendimentos oferecidos.

Referências

  1. Ohayon MM. Epidemiology of insomnia: what we know and what we still need to learn. Sleep Med Rev. 2002;6(2):97-111. DOI: 10.1053/smrv.2002.0186
  2. Morin CM, Jarrin DC. Epidemiology of insomnia: prevalence, course, risk factors, and public health burden. Sleep Med Clin. 2022;17(2):173-191. DOI: 10.1016/j.jsmc.2022.03.003
  3. Buysse DJ. Insomnia. JAMA. 2013;309(7):706-716. DOI: 10.1001/jama.2013.193
  4. American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5th ed., Text Revision (DSM-5-TR). Washington, DC: APA Publishing; 2022. DOI: 10.1176/appi.books.9780890425787
  5. World Health Organization. ICD-11 for Mortality and Morbidity Statistics. Genebra: OMS; 2022. Disponível em: https://icd.who.int/
  6. Chang AM, Aeschbach D, Duffy JF, Czeisler CA. Evening use of light-emitting eReaders negatively affects sleep, circadian timing, and next-morning alertness. Proc Natl Acad Sci USA. 2015;112(4):1232-1237. DOI: 10.1073/pnas.1418490112
  7. Jahrami H, BaHammam AS, Bragazzi NL, Saif Z, Faris M, Vitiello MV. Sleep problems during the COVID-19 pandemic by population: a systematic review and meta-analysis. J Clin Sleep Med. 2021;17(2):299-313. DOI: 10.5664/jcsm.8930
  8. Ebrahim IO, Shapiro CM, Williams AJ, Fenwick PB. Alcohol and sleep I: effects on normal sleep. Alcohol Clin Exp Res. 2013;37(4):539-549. DOI: 10.1111/acer.12006
  9. Itani O, Jike M, Watanabe N, Kaneita Y. Short sleep duration and health outcomes: a systematic review, meta-analysis, and meta-regression. Sleep Med. 2017;32:246-256. DOI: 10.1016/j.sleep.2016.08.006
  10. Edinger JD, Arnedt JT, Bertisch SM, et al. Behavioral and psychological treatments for chronic insomnia disorder in adults: an American Academy of Sleep Medicine clinical practice guideline. J Clin Sleep Med. 2021;17(2):255-262. DOI: 10.5664/jcsm.8986
  11. Riemann D, Espie CA, Altena E, et al. The European Insomnia Guideline: an update on the diagnosis and treatment of insomnia 2023. J Sleep Res. 2023;32(6):e14035. DOI: 10.1111/jsr.14035

Sobre o autor

Dr. Diego Tinoco Rodrigues · CRM-MG 58241 · RQE 37921

Médico psiquiatra com residência médica pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG). Atende em consultório no bairro Santa Tereza, em Belo Horizonte, e por telemedicina para todo o Brasil — com foco em TDAH em adultos, autismo, ansiedade e depressão, em uma abordagem clínica baseada em evidência e escuta humanizada.

Autor do livro Mesmo quem não fala muito tem muito a dizer — sobre silêncio, sensibilidade e o que existe antes da fala. Idealizador do Portal Neurodivergente e do Emociona.ai.

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