Voltar

Síndrome do pânico: sintomas, diagnóstico e tratamento

Publicado em Última revisão clínica em Dr. Diego Tinoco
Síndrome do pânico: sintomas, diagnóstico e tratamento

O que é a síndrome do pânico

A síndrome do pânico — termo popular para o transtorno do pânico (DSM-5-TR, código 300.01; CID-11 6B01) — é um transtorno de ansiedade caracterizado por ataques de pânico recorrentes e inesperados, seguidos por preocupação persistente sobre novos ataques ou mudança significativa de comportamento para evitá-los.1,2

É uma condição relativamente comum e, importantemente, tratável: estimativas internacionais apontam prevalência ao longo da vida entre 2% e 5% na população adulta, com início mais frequente entre o fim da adolescência e os 35 anos, e maior frequência em mulheres.3,4

Ataque de pânico não é o mesmo que transtorno do pânico

Essa distinção é central — e costuma gerar confusão mesmo em consultórios não especializados:

  • Ataque de pânico: episódio agudo de medo ou desconforto intensos, que atinge o pico em poucos minutos. Pode ocorrer em qualquer pessoa, em contextos variados (estresse agudo, uso de substâncias, outras condições clínicas), e não configura, sozinho, um transtorno.1
  • Transtorno do pânico: diagnóstico clínico que exige ataques recorrentes e inesperados, seguidos de pelo menos um mês de preocupação antecipatória ou mudança comportamental relevante (por exemplo, evitar locais ou situações por medo de novos episódios).1

Critérios diagnósticos (DSM-5-TR e CID-11)

Segundo o DSM-5-TR, um ataque de pânico envolve a presença abrupta de 4 ou mais dos seguintes sintomas, com pico em minutos:1

  • Palpitações, batimentos cardíacos acelerados ou taquicardia;
  • Sudorese;
  • Tremores ou abalos;
  • Sensação de falta de ar ou sufocamento;
  • Sensação de asfixia (engasgo);
  • Dor ou desconforto no peito;
  • Náusea ou desconforto abdominal;
  • Tontura, instabilidade, sensação de cabeça leve ou desmaio;
  • Calafrios ou ondas de calor;
  • Parestesias (formigamento ou dormência);
  • Desrealização (sensação de irrealidade) ou despersonalização (sentir-se distante de si mesmo);
  • Medo de perder o controle ou "enlouquecer";
  • Medo de morrer.

Para fechar o diagnóstico de transtorno do pânico, é necessário:

  • Ataques recorrentes e inesperados (sem gatilho identificável claro);
  • Pelo menos um mês de preocupação persistente sobre novos ataques ou suas consequências (perder o controle, ter um ataque cardíaco), ou mudança desadaptativa significativa no comportamento;
  • Exclusão de causas médicas (hipertireoidismo, arritmias, uso de substâncias estimulantes) e de outros transtornos mentais que melhor expliquem o quadro.1

A CID-11 adota critérios essencialmente compatíveis, classificando o transtorno do pânico no agrupamento dos transtornos de ansiedade ou relacionados ao medo (6B01).2

Por que os sintomas se confundem com infarto

Palpitações intensas, dor no peito, falta de ar e sensação iminente de morte são sintomas que se sobrepõem aos de eventos cardíacos. Por esse motivo, é frequente a procura por pronto-socorros — e isso, do ponto de vista clínico, é apropriado em um primeiro episódio: a avaliação cardiológica inicial ajuda a excluir condições graves.3

Uma vez descartadas causas cardíacas, pulmonares e endócrinas, a investigação deve seguir para uma avaliação psiquiátrica estruturada — não para minimizar o sofrimento, mas para evitar idas repetidas a emergências que, por si só, podem reforçar o ciclo de ansiedade antecipatória.

Comorbidades comuns

O transtorno do pânico raramente aparece isolado. Estima-se que mais da metade das pessoas com o diagnóstico tenha ao menos uma comorbidade psiquiátrica ao longo da vida — as mais frequentes incluem:3,4

Reconhecer comorbidades importa porque elas influenciam tanto o prognóstico quanto a escolha do tratamento.

Tratamento baseado em evidência

As diretrizes internacionais — incluindo NICE (Reino Unido), APA (EUA) e WFSBP — convergem em duas linhas de primeira escolha, isoladas ou combinadas:5,6

  • Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) com foco em pânico: intervenção psicoterapêutica com maior nível de evidência, incluindo psicoeducação, reestruturação cognitiva, exposição interoceptiva (a sensações corporais) e exposição a situações evitadas.
  • Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRS) — como sertralina, escitalopram, paroxetina, fluoxetina — e Inibidores da Recaptação de Serotonina e Noradrenalina (IRSN), como venlafaxina. São considerados primeira linha farmacológica pelo perfil de eficácia e tolerabilidade.

Benzodiazepínicos podem ter papel pontual em momentos agudos, mas não são primeira escolha para uso contínuo, dado o risco de tolerância, dependência e prejuízo cognitivo a longo prazo.5

A resposta ao tratamento costuma ser gradual: melhora significativa é esperada em 8 a 12 semanas de tratamento adequado, e a manutenção habitualmente se estende por 12 meses ou mais após remissão dos sintomas, para reduzir risco de recaída.6

Quando procurar ajuda

Procure avaliação especializada se:

  • Você tem episódios recorrentes que se encaixam na descrição acima;
  • Há preocupação persistente com novos ataques, mesmo nos intervalos;
  • Você passou a evitar lugares, situações ou atividades por medo de ter um episódio;
  • O quadro afeta trabalho, estudo, sono ou relações;
  • Há uso crescente de álcool ou outras substâncias para "lidar" com os sintomas.

Em casos com ideação suicida, sofrimento intenso ou emergência médica, busque ajuda imediatamente: SAMU 192, CVV 188 (24h, gratuito) ou o pronto-socorro mais próximo.

Aviso importante

Este conteúdo é educacional e não substitui consulta médica individual. Diagnóstico e prescrição de tratamento exigem avaliação clínica presencial ou por telemedicina, conforme regulamentação do CFM. Em caso de sintomas, procure um médico psiquiatra ou serviço de saúde mental.

Referências

  1. American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5th ed., Text Revision (DSM-5-TR). Washington, DC: APA Publishing; 2022. DOI: 10.1176/appi.books.9780890425787
  2. World Health Organization. ICD-11 for Mortality and Morbidity Statistics. Genebra: OMS; 2022. Disponível em: https://icd.who.int/
  3. Kessler RC, Chiu WT, Jin R, Ruscio AM, Shear K, Walters EE. The epidemiology of panic attacks, panic disorder, and agoraphobia in the National Comorbidity Survey Replication. Arch Gen Psychiatry. 2006;63(4):415-424. DOI: 10.1001/archpsyc.63.4.415
  4. Bandelow B, Michaelis S. Epidemiology of anxiety disorders in the 21st century. Dialogues Clin Neurosci. 2015;17(3):327-335. DOI: 10.31887/DCNS.2015.17.3/bbandelow
  5. Bandelow B, Allgulander C, Baldwin DS, et al. World Federation of Societies of Biological Psychiatry (WFSBP) guidelines for treatment of anxiety, obsessive-compulsive and posttraumatic stress disorders – Version 3. World J Biol Psychiatry. 2023;24(2):79-117. DOI: 10.1080/15622975.2022.2086295
  6. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Generalised anxiety disorder and panic disorder in adults: management (CG113). Atualizado em 2020. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/cg113

Sobre o autor

Dr. Diego Tinoco Rodrigues · CRM-MG 58241 · RQE 37921

Médico psiquiatra com residência médica pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG). Atende em consultório no bairro Santa Tereza, em Belo Horizonte, e por telemedicina para todo o Brasil — com foco em TDAH em adultos, autismo, ansiedade e depressão, em uma abordagem clínica baseada em evidência e escuta humanizada.

Autor do livro Mesmo quem não fala muito tem muito a dizer — sobre silêncio, sensibilidade e o que existe antes da fala. Idealizador do Portal Neurodivergente e do Emociona.ai.

Para agendar uma avaliação clínica, fale pelo contato ou conheça mais sobre o trabalho do Dr. Diego.

Leia também

Síndrome do pânico: sintomas, diagnóstico e tratamento | Dr. Diego Tinoco