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Solidão a dois no casamento: por que sentir-se sozinho ao lado de quem se ama

Dr. Diego Tinoco

Solidão a dois no casamento: por que sentir-se sozinho ao lado de quem se ama

"Eu durmo com ele todas as noites e me sinto a pessoa mais sozinha do mundo." Essa frase aparece com frequência no consultório, dita por mulheres e homens, em casamentos de 5 anos e de 30. Não é manhã ruim, não é cansaço — é um padrão estável que tem nome técnico, tem literatura científica, e tem desfecho clínico relevante para saúde mental.

O termo em inglês é marital loneliness ou emotional disengagement in marriage. Em português: solidão a dois, ou desengajamento emocional no casamento. O fenômeno é comum o suficiente para ter sido sistematicamente estudado em sociologia e psicologia familiar — embora estimativas exatas de prevalência variem por instrumento e cultura.

O que significa, clinicamente

Solidão a dois não é igual a estar mal-acompanhado. É um padrão específico em que a pessoa convive fisicamente com o parceiro, mantém rotinas compartilhadas, frequentemente boa convivência operacional (filhos, casa, finanças) — mas perdeu a conexão emocional íntima. Especificamente:

  • Conversas viraram logística — agenda, contas, escola dos filhos;
  • Sexualidade ou diminuiu drasticamente, ou virou rotina sem cumplicidade;
  • Não compartilha mais aquilo que importa internamente — medos, sonhos, alegrias sutis;
  • O parceiro está presente, mas não é mais a primeira pessoa em quem se pensa numa boa notícia;
  • Há uma sensação persistente de "ele/ela não me vê mais".

Holt-Lunstad e colaboradores (2015), em meta-análise no Perspectives on Psychological Science, agruparam 70 estudos e mostraram que solidão e isolamento social são fatores de risco para mortalidade comparáveis a obesidade e tabagismo — e o efeito é independente de estar fisicamente sozinho.[1] Ou seja: você pode estar tecnicamente acompanhado e ainda assim sofrer o impacto biológico da solidão.

Como chega a esse ponto

Quase nunca da noite pro dia. Os padrões mais comuns que se acumulam ao longo de anos:

1. Erosão por sobrecarga

Vida virou logística. Trabalho, filhos, finanças, problemas familiares — tudo consome largura de banda emocional. Sobra zero pra conversa íntima. "Vamos conversar com calma no fim de semana" virou promessa que nunca acontece.

2. Conflito mal-resolvido virou silêncio

Tentar conversar gerava briga. Brigar cansou. Pararam de tocar nos assuntos difíceis. Hoje a relação parece "calma" — mas a calma é a calma da rendição, não da resolução.

3. Descobrir que o parceiro não é o destinatário certo

A pessoa amadureceu (ou mudou) e percebeu que o parceiro não consegue acolher determinadas dimensões dela. Ela parou de oferecer essas dimensões. Continuam casados, mas há uma versão dela que vive em outro lugar — com amigos, sozinha, em terapia, num diário.

4. Um dos dois adoeceu silenciosamente

Depressão sem diagnóstico, transtorno de ansiedade, burnout, alcoolismo de fim de semana — qualquer um desses arrasta o vínculo junto. Frequentemente um dos dois sustenta a casa sozinho sem perceber que o outro está mal.

O que costuma chegar pra mim como queixa

Raramente alguém marca consulta dizendo "estou em solidão a dois". A queixa que aparece costuma ser:

  • Insônia que não responde a higiene do sono;
  • Sensação de vazio crônica, "humor pra baixo";
  • Crises de choro sem motivo aparente;
  • Ansiedade nova, especialmente à noite;
  • Perda de prazer em coisas que antes davam prazer (anedonia leve).

O cuidado clínico começa investigando o que sustenta o sintoma. Se a vida amorosa entrou nesse padrão, tratar só o sintoma (medicação) sem olhar pra causa rende alívio parcial e recidiva. Fernandes e Hernández (2024), em Research and Practice in Couple Therapy, analisaram 415 adultos no México em relacionamento há pelo menos um ano e mostraram que solidão emocional medeia a relação entre comportamentos de bloqueio (stonewalling) e desengajamento sexual no casal — ou seja, o silêncio do parceiro alimenta a sensação de não-conexão que por sua vez precipita o afastamento físico.[2]

O que ajuda

Não há fórmula. Há caminhos que costumam funcionar quando há disposição dos dois:

1. Nomear o problema

Frase difícil mas necessária: "Eu te amo, mas estou me sentindo só ao seu lado." Geralmente o outro não percebeu — ou percebeu e também não soube dizer. Nomear cria abertura.

2. Reduzir a logística, aumentar o ritual

Tempo protegido pra conversa sem distração — celular fora, TV desligada, 30 min duas vezes por semana. Pode ser caminhada, jantar, café sem ninguém junto. Constância importa mais que duração.

3. Investigar quadro psiquiátrico em ambos

Depressão dele(a) pode ser o que está sustentando o silêncio. Tratar muda a equação.

4. Terapia de casal — antes de virar separação

Terapeuta especializado (Gottman Method, EFT, IFS-couples) é diferente de psicólogo geral. Procurar quem tem formação específica em casais. Frequentemente recupera o que parecia perdido.

5. Aceitar quando não dá

Às vezes o trabalho mostra que o vínculo realmente esgotou. Separação cuidadosa é melhor que casamento esvaziado por mais 20 anos — pra ambos, pra filhos quando há.

Quando procurar psiquiatra

Quando o sintoma individual está intenso o suficiente pra atrapalhar funcionalidade — sono persistentemente ruim, humor consistentemente baixo, ansiedade frequente, ideação suicida em qualquer intensidade. Psiquiatra trata o sintoma e ajuda a clarear o quadro. Terapia individual e/ou de casal cuida do tema relacional em paralelo.

Referências

  1. Holt-Lunstad J, Smith TB, Baker M, Harris T, Stephenson D. Loneliness and Social Isolation as Risk Factors for Mortality: A Meta-Analytic Review. Perspect Psychol Sci. 2015;10(2):227-237. DOI: 10.1177/1745691614568352
  2. Fernandes EL, Hernández GR. The Mediating Role of Emotional Loneliness in Relationship between Stonewalling and Marital Discord. Res Pract Couple Ther. 2024;2(1). DOI: 10.61838/rpct.2.1.2
  3. Hazan C, Shaver P. Romantic love conceptualized as an attachment process. J Pers Soc Psychol. 1987;52(3):511-524. DOI: 10.1037/0022-3514.52.3.511

Sobre o autor

Dr. Diego Tinoco Rodrigues · CRM-MG 58241 · RQE 37921

Médico psiquiatra com residência médica pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG). Atende em consultório no bairro Santa Tereza, em Belo Horizonte, e por telemedicina para todo o Brasil — com foco em TDAH em adultos, autismo, ansiedade e depressão, em uma abordagem clínica baseada em evidência e escuta humanizada.

Autor do livro Mesmo quem não fala muito tem muito a dizer — sobre silêncio, sensibilidade e o que existe antes da fala. Idealizador do Portal Neurodivergente e do Emociona.ai.

Para agendar uma avaliação clínica, fale pelo contato ou conheça mais sobre o trabalho do Dr. Diego.

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