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Tratamento de TDAH e mortalidade: o estudo sueco (Li 2024 JAMA)

Publicado em Última revisão clínica em Dr. Diego Tinoco
Tratamento de TDAH e mortalidade: o estudo sueco (Li 2024 JAMA)

Tratamento medicamentoso para TDAH e mortalidade: o que mostra o estudo sueco

Um estudo de coorte populacional publicado em JAMA em março de 2024, conduzido por Li e colaboradores com base em registros nacionais da Suécia, analisou 148.578 indivíduos diagnosticados com TDAH entre 2007 e 2018. O foco: o uso de medicação para TDAH e o risco de morte por causas externas e naturais.1

O achado principal: o início do tratamento medicamentoso esteve associado a redução significativa do risco de mortalidade total nos dois anos seguintes ao diagnóstico, com efeito mais expressivo sobre causas não-naturais (acidentes, overdoses, suicídio).

Como o estudo foi feito

Os pesquisadores compararam, dentro da própria coorte:

  • Indivíduos que iniciaram tratamento medicamentoso em até 3 meses após o diagnóstico de TDAH;
  • Indivíduos que não iniciaram tratamento;
  • Variáveis controladas: idade, sexo, condições psiquiátricas comórbidas, uso prévio de substâncias.

Esse desenho — coorte populacional com base em registros vinculados — é considerado o melhor desenho disponível para responder a esse tipo de pergunta. Ensaios clínicos randomizados são eticamente inviáveis para o desfecho "mortalidade".

O resultado em números

Em síntese, segundo o artigo:1

  • Mortalidade por todas as causas: redução de ~19% no grupo tratado;
  • Causas não-naturais (acidentes, overdoses, suicídio): redução mais marcada;
  • Efeito permaneceu significativo após ajustes para comorbidades.

O efeito é coerente com estudos prévios que mostram redução de acidentes de trânsito (Chang 2014), comportamentos suicidas (Chen 2014) e lesões não intencionais (Vasiliadis 2024, Quebec).2,3,4

Por que importa

O TDAH não tratado está associado a desfechos negativos que vão além do desempenho escolar ou produtividade — incluindo maior risco de acidentes, uso problemático de substâncias e comportamentos de risco. Estudos como o sueco mostram que o tratamento medicamentoso adequado não é apenas sobre "concentração": é uma intervenção de saúde pública com implicações sobre mortalidade.5

Isso se torna relevante no contexto brasileiro, onde o subdiagnóstico do TDAH em adultos é a regra — não a exceção.

Limitações importantes

Toda interpretação do estudo precisa considerar:

  • Estudo observacional: associação não é causalidade definitiva. Pode haver confounders não medidos (adesão a outros cuidados de saúde, acesso a tratamento como proxy de outras coisas);
  • Generalização: dados suecos (sistema de saúde universal, acesso amplo) podem não se transferir 1:1 para outros contextos;
  • Tipo de medicação não detalhado por subgrupo no resultado principal: estimulantes vs não-estimulantes podem ter perfis distintos;
  • Não substitui ensaios clínicos randomizados em desfechos clínicos imediatos.

A conclusão razoável: a evidência aponta consistentemente para benefício de segurança, mas exige interpretação clínica individualizada.

Como os medicamentos para TDAH atuam

De forma simplificada:6

  • Estimulantes (metilfenidato, lisdexanfetamina, dextroanfetamina): aumentam disponibilidade de dopamina e noradrenalina em circuitos pré-frontais. Primeira linha em adultos;
  • Não estimulantes (atomoxetina, bupropiona, guanfacina, clonidina): atuam por mecanismos noradrenérgicos ou alpha-2 agonistas. Alternativas em perfis específicos (uso de substâncias, ansiedade significativa).

O tratamento exige avaliação cardiovascular inicial, ajuste de dose gradual e acompanhamento médico — não é para autoindicação.

Efeitos colaterais e monitoração

Como qualquer medicação, há perfil de efeitos a monitorar:7

  • Redução de apetite (especialmente nas primeiras semanas);
  • Dificuldade para dormir, geralmente dependente do horário da dose;
  • Aumento leve de frequência cardíaca e pressão arterial;
  • Boca seca, cefaleia;
  • Em alguns casos, oscilações de humor.

Esses efeitos costumam ser dose-dependentes e manejáveis com ajustes clínicos.

O que isso significa na prática

Três conclusões clínicas razoáveis:

  • O receio amplamente difundido de que medicamentos para TDAH sejam "perigosos" como classe não é sustentado pela literatura atual, quando comparado ao risco do TDAH não tratado;
  • A decisão de medicar (ou não) deve ser individualizada, baseada em avaliação psiquiátrica completa;
  • Acompanhamento clínico regular permite ajustar dose, monitorar efeitos e revisar a indicação ao longo do tempo.

Aviso importante

Este conteúdo é educacional e não substitui consulta médica individual. Início, ajuste e suspensão de medicamentos para TDAH exigem avaliação clínica e prescrição médica, conforme regulamentação do CFM. Para agendar uma avaliação, conheça mais sobre o atendimento em TDAH adulto.

Em emergências (ideação suicida, crise psíquica): SAMU 192, CVV 188 (24h, gratuito) ou pronto-socorro mais próximo.

Veja também: estudo de Quebec sobre TDAH e segurança em jovens.

Referências

  1. Li L, Zhu N, Zhang L, et al. ADHD pharmacotherapy and mortality in individuals with ADHD. JAMA. 2024;331(10):850-860. DOI: 10.1001/jama.2024.0851
  2. Chang Z, Lichtenstein P, D'Onofrio BM, Sjölander A, Larsson H. Serious transport accidents in adults with attention-deficit/hyperactivity disorder and the effect of medication: a population-based study. JAMA Psychiatry. 2014;71(3):319-325. DOI: 10.1001/jamapsychiatry.2013.4174
  3. Chen Q, Sjölander A, Runeson B, D'Onofrio BM, Lichtenstein P, Larsson H. Drug treatment for attention-deficit/hyperactivity disorder and suicidal behaviour: register based study. BMJ. 2014;348:g3769. DOI: 10.1136/bmj.g3769
  4. Vasiliadis HM, Lunghi C, Rahme E, et al. ADHD medications use and risk of mortality and unintentional injuries: a population-based cohort study. Transl Psychiatry. 2024;14(1):128. DOI: 10.1038/s41398-024-02825-y
  5. Faraone SV, Banaschewski T, Coghill D, et al. The World Federation of ADHD International Consensus Statement: 208 evidence-based conclusions about the disorder. Neurosci Biobehav Rev. 2021;128:789-818. DOI: 10.1016/j.neubiorev.2021.01.022
  6. Faraone SV. The pharmacology of amphetamine and methylphenidate: relevance to the neurobiology of attention-deficit/hyperactivity disorder and other psychiatric comorbidities. Neurosci Biobehav Rev. 2018;87:255-270. DOI: 10.1016/j.neubiorev.2018.02.001
  7. Cortese S, Adamo N, Del Giovane C, et al. Comparative efficacy and tolerability of medications for attention-deficit hyperactivity disorder in children, adolescents, and adults: a systematic review and network meta-analysis. Lancet Psychiatry. 2018;5(9):727-738. DOI: 10.1016/S2215-0366(18)30269-4

Sobre o autor

Dr. Diego Tinoco Rodrigues · CRM-MG 58241 · RQE 37921

Médico psiquiatra com residência médica pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG). Atende em consultório no bairro Santa Tereza, em Belo Horizonte, e por telemedicina para todo o Brasil — com foco em TDAH em adultos, autismo, ansiedade e depressão, em uma abordagem clínica baseada em evidência e escuta humanizada.

Autor do livro Mesmo quem não fala muito tem muito a dizer — sobre silêncio, sensibilidade e o que existe antes da fala. Idealizador do Portal Neurodivergente e do Emociona.ai.

Para agendar uma avaliação clínica, fale pelo contato ou conheça mais sobre o trabalho do Dr. Diego.

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