Reforma Psiquiátrica 2.0 – Uma proposta para os novos governos

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Reforma Psiquiátrica 2.0 – Uma proposta para os novos governos

Quando falamos em reforma psiquiátrica ou luta antimaniconial o que vem na mente de muitos é: menos internações, menos leitos, menos sofrimento hospitalar.

Assim é o que a maioria das pessoas pensam, e por muito tempo foi assim que eu pensei.

Por que será que temos tal pensamento?

Crescemos aprendendo e vendo por filmes, documentários e livros como funcionavam alguns hospitais psiquiátricos.

Realmente é muito triste e lamentável tudo aquilo que transcorreu nesse período.

Muitos eram internados injustamente, muitas vezes não tinham bons remédios para o controle dos sintomas, e infelizmente alguns métodos utilizados eram tristes e cruéis.

Sim. Era uma triste realidade. A discriminação ficou evidenciada, o preconceito só aumentava.

No decorrer das últimas décadas a medicina e a psiquiatria muito se atualizou, inovou e não só descobriu, mas fabricou diversas opções medicamentosas para diversas doenças da mente humana.

Com o advento de tais remédios, com a proposta da humanização de vários centros de saúde e uma equipe multidisciplinar, a imagem preconceituosa da psiquiatria e das pessoas que vão em uma consulta psiquiátrica, foi aos poucos diminuindo.

Para muitos, hoje em dia não é vergonha nenhuma falar que vai ao psiquiatra ou ao psicólogo. E isso deve continuar.

Por outro lado, existe um grupo de pessoas interessadas em teorizar ou praticar a reforma psiquiátrica como algo restrito a “acabar com leitos psiquiátricos”.

Os hospitais psiquiátricos estão acabando. E cabe ressaltar aqui: não apenas os hospitais públicos, mas os privados também.

Hoje há leis para não abrir novos leitos psiquiátricos em Minas Gerais e praticamente acabar com o que já tem.

Quando alguns argumentam a favor de acabar com os leitos, logo se argumenta sobre o passado terrível daqueles momentos.

Mas precisamos de dialogar mais sobre isso. Precisamos de aprofundar melhor nesse assunto.

Como assim acabar com leitos psiquiátricos em um Brasil que a cada 45 minutos um suicídio acontece.

Como acabar com leitos psiquiátricos se em diversos momentos não há vagas em hospitais psiquiátricos para um paciente e família que precisa de uma ajuda urgente?

Como acabar com leitos psiquiátricos em um lugar onde as pessoas têm que dormir no chão, pois não há camas no hospital e não tem como voltar para casa devido a gravidade do caso?

Como não ter médicos 24 horas de plantão no CAPS ou CERSAM (Belo Horizonte não tem) se os pacientes podem precisar de médicos a qualquer momento do dia ou da noite? Ou agora tem hora para ir a hospital?

Do meu ponto de vista, temos que atualizar esse modo de ver a reforma psiquiátrica.

A saúde mental das pessoas está piorando cada dia mais, e menos o Estado faz algo de efetivo para prevenção e cuidados nessa área. E pior, atrapalha a iniciativa privada de fazer algo.

Temos vergonha de falar sobre o assunto, mas não podemos nos abdicar de falar e discutir sobre o assunto.

Qualquer um de nós estamos sujeitos a ter doenças psiquiátricas, e não é vergonha pedir ajuda.

Pedir ajuda é um sinal de Fortaleza e humildade.

E exatamente por isso, peço ajuda de vocês a avaliarem como sua cidade ou seu estado atua na saúde mental.

Vamos aprofundar mais no tema. Não quero que as pessoas fiquem semanas a meses internados em hospitais, mas é necessário em alguns casos.

Não quero que a família largue o paciente no hospital, e medidas para evitar isso é necessário. Mas acabar com o leito psiquiátrico é acabar com o respeito ao próprio paciente.

Acho que o Estado deve fiscalizar melhor, impor multas e condicionantes para o bom funcionamento, caso contrário fecha.

Mas impedir de dar assistência é impedir de cuidar de cada um de nós, pois qualquer um pode ser vítima desse processo.

Quando decidir a fazer psiquiatria, queria estudar um pouco mais sobre a felicidade. Porém no decorrer do caminho, observei que a psiquiatria trata de doenças relacionadas à depressão, ansiedade, pânico, esquizofrenia, vícios em geral, bipolar. Não falamos da felicidade propriamente dita, mas falamos de doenças que ajudam a melhorar a tristeza que está dentro de cada um.

E a reforma psiquiátrica 2.0 que incentivo agora é avaliação criteriosa dos locais públicos e privados de assistência a saúde mental, com rigor nas avaliações com indicadores técnicos de melhoria e satisfação do paciente e familiar, sem deixar de lado a vida do paciente.

É uma reforma que não esteja ligada a exclusivamente doenças propriamente dito, mas a promoção do bem estar emocional e ao tratamento das doenças, logicamente.

A reforma psiquiátrica 2.0, ao meu ver, ela pode estar em todo lugar: nas casas, nos locais públicos e privados, estimulando o bem e reduzindo o estresse diário do nosso dia a dia.

A reforma psiquiátrica 2.0 estimula o contato social na prática, com indicadores eficazes e contundes, evitando ambientes estressores por aqueles já estressados.

Precisamos de inovar na política e na reforma.

Ao falarmos da reforma psiquiátrica, procure entender melhor o que essa pessoa está defendendo.

Ela está defendendo maior respeito e solidariedade aos pacientes e familiares psiquiátricos? Ou ela está defendendo apenas uma norma para extinção dos leitos psiquiátricos?

Se for a segunda opção, cuidado!

Não vamos acabar com o que precisamos quando estamos mais frágeis, mas devemos sim cobrar por respeito e consideração.

Para se ter respeito, muitas vezes a pessoa precisa pelo menos de uma cama para se alojar em um hospital, desde que tenha estrutura, respeito e carinho.

Não ao fim dos leitos psiquiátricos, mas fim dos leitos psiquiátricos como existiam antigamente.

Sim ao respeito e a humanização.

Sim ao indicadores de qualidade.

Sim a promoção do bem estar emocional.

Sim ao dizer que somos humanos, e qualquer um pode precisar de cuidados mentais um dia.

Não ao preconceito e não a vergonha de pedir ajuda.

Um abraço.