Depressão e trabalho: presenteísmo, afastamento e retorno

Dois custos diferentes, e só um deles deixa marca
Quando se fala de depressão e trabalho, a imagem que vem primeiro é a da ausência: o atestado entregue no RH, os dias sem registro de ponto, a tarefa que ficou esperando. Esse custo tem nome — absenteísmo — e é o mais fácil de medir, porque deixa rastro administrativo.
O outro custo não deixa. É o dos dias em que a pessoa está no posto de trabalho, cumpre o horário, entra nas reuniões, responde o que lhe pedem, e ainda assim entrega menos do que entregaria fora de um episódio depressivo. Esse se chama presenteísmo, e a pesquisa em economia da saúde insiste nele justamente porque ele não aparece em lugar nenhum: não há falta para contar nem documento para arquivar.
A distinção parece burocrática e não é. Ela decide o que a empresa enxerga, o que um gestor interpreta como desempenho e também o que a própria pessoa conclui sobre si mesma — que o problema é esforço, e não um quadro de saúde em curso.
O que os estudos de custo estimam
Um estudo transversal publicado em Social Psychiatry and Psychiatric Epidemiology estimou os custos de absenteísmo e de presenteísmo ligados à depressão em oito países de culturas e níveis de renda bem diferentes, entre eles o Brasil. Os custos associados ao presenteísmo tenderam a ser de cinco a dez vezes maiores que os associados ao absenteísmo, e o custo médio de presenteísmo por pessoa esteve entre os mais altos no Brasil e nos Estados Unidos.1 A conclusão dos autores é que o impacto da depressão no ambiente de trabalho é considerável em todos os países estudados, independentemente de renda nacional ou de cultura.1
Vale saber como esse número é construído, porque isso muda o peso que ele carrega: são estimativas econômicas montadas a partir de autorrelato de produtividade, não medidas diretas de produção. O estudo não diz quantas pessoas com depressão seguem trabalhando durante o episódio — ele estima custo, não frequência. O que ele permite afirmar é mais modesto e ainda assim relevante: nessas estimativas, a parte do custo que ninguém registra é a maior parte.1
Faltar e render menos não vêm do mesmo lugar
Um estudo com cerca de cinco mil trabalhadores, publicado no Journal of Affective Disorders, cruzou uma escala de sintomas depressivos com um questionário de desempenho no trabalho. Encontrou o que se esperaria: quanto mais intensos os sintomas, mais faltas e menor desempenho relatado.2 O achado menos óbvio está no detalhe. Ao separar os sintomas em vez de somá-los num escore único, os autores observaram que os sintomas que mais contribuíram para o presenteísmo foram os de natureza cognitiva, enquanto os que mais contribuíram para a ausência foram os de natureza comportamental.2
Em linguagem de dia a dia: aquilo que faz a pessoa não conseguir sair de casa é de uma ordem; aquilo que a faz passar quarenta minutos relendo o mesmo parágrafo, ou travar diante de uma decisão pequena, é de outra. São dois mecanismos, e um deles é invisível para quem só olha a folha de ponto.
Os limites desse estudo precisam ser ditos, porque mudam o que ele autoriza concluir: é transversal, baseado em autorrelato, e a amostra foi recrutada para avaliar um aplicativo de saúde mental, o que significa que as pessoas se candidataram. Ele não estabelece causa e não serve como prevalência. O abstract também não nomeia quais sintomas específicos pesaram mais em cada desfecho — fala de naturezas, não de itens. Os próprios autores sugerem que a distinção tem implicação prática para decisões de tratamento e de retorno ao trabalho.2
Quando o afastamento entra na conversa
Em algum ponto a pergunta aparece: afastar ou seguir? Ela não tem resposta genérica, e quem a responde é a pessoa com quem ela está em tratamento, caso a caso, considerando intensidade dos sintomas, tipo de trabalho, rede de apoio e o que o afastamento significa concretamente na vida dela — inclusive em renda.
O que dá para dizer de forma geral é como funciona o documento. A Resolução CFM nº 2.381/2024, que normatiza a emissão de documentos médicos e segue em vigor com a alteração feita pela Resolução CFM nº 2.418/2024, trata do atestado em seu art. 5º.5 O §3º diz que o médico só pode fornecer atestado com o diagnóstico, codificado ou não, "quando por justa causa, em exercício de dever legal ou por solicitação do próprio paciente ou de seu representante legal".5 O §4º acrescenta que, quando a solicitação vem do paciente, essa concordância fica expressa no próprio atestado e registrada em prontuário.5
Na prática, isso responde a uma preocupação muito comum de quem precisa de atestado e teme o que vai acontecer depois: o diagnóstico, ou o código da CID, não entra no atestado por padrão. Ele entra quando a pessoa pede ou concorda, ou nas hipóteses de justa causa e dever legal previstas na resolução. Quando o documento é pedido para perícia, a figura prevista na mesma resolução é outra, o relatório médico especializado, mais extenso.5 Questões trabalhistas e previdenciárias específicas — estabilidade, benefício, enquadramento — são do campo jurídico, e quem orienta sobre elas é a Defensoria Pública, um sindicato ou um advogado.
O que a pesquisa encontra sobre o retorno
A revisão Cochrane sobre intervenções para melhorar o retorno ao trabalho de pessoas com depressão reuniu 45 estudos, com mais de doze mil participantes, e avaliou a certeza de cada achado pelo método GRADE.3 O resumo dela é menos espetacular e mais útil do que manchete de produtividade:
- Combinar uma intervenção voltada ao trabalho com uma intervenção clínica provavelmente reduz os dias de afastamento no primeiro ano de seguimento — certeza moderada.3
- Essa mesma combinação não reduz o número de pessoas afastadas além de um ano de seguimento, e aqui a certeza é alta.3 O ganho existe e é limitado no tempo.
- Intervenções psicológicas podem reduzir os dias de afastamento em comparação com o cuidado habitual — certeza baixa.3
- Não houve evidência de diferença entre um antidepressivo e outro quanto ao efeito sobre afastamento.3
Duas leituras saem daí. A primeira é que a combinação importa: tratar o quadro e mexer na situação de trabalho fazem coisas diferentes, e a revisão aponta para o conjunto, não para um dos dois. A segunda é que os efeitos são pequenos e a certeza, no geral, baixa a moderada — nenhuma dessas intervenções garante retorno, e a própria revisão termina pedindo mais pesquisa sobre qual combinação funciona melhor.3 Quem promete resultado está prometendo além do que a evidência tem.
O que se associa a um retorno mais lento
Uma revisão sistemática com metanálise de estudos de coorte, publicada no Journal of Psychiatric Research, reuniu dados de cinco países sobre o que prevê o retorno ao trabalho depois de um afastamento por depressão. Idade maior, presença de outras condições físicas, presença de outras condições psiquiátricas e depressão mais grave se associaram a uma taxa menor de retorno; o traço de conscienciosidade se associou a uma taxa maior.4
Três ressalvas acompanham esse resultado, e são dos próprios autores. Houve heterogeneidade significativa entre os estudos, o que torna os fatores indicativos e não regras.4 São associações observadas em grupos — não dizem o que vai acontecer com uma pessoa. E há poucos estudos observacionais sobre o tema: a revisão termina pedindo que a pesquisa futura olhe para o papel do local de trabalho e do mercado de trabalho, e não só para características individuais.4 Essa última frase é a mais importante do conjunto, porque desloca a pergunta. Boa parte do que determina um retorno não está dentro de quem retorna.
Por onde isso costuma começar
Considere uma situação fictícia, só para fixar a ideia. Alguém percebe há meses que as tarefas levam o dobro do tempo, que as decisões pequenas travam e que o fim de semana inteiro vai embora em recuperação. Não faltou nenhum dia. A avaliação de desempenho veio mais fraca, e a conclusão imediata foi sobre caráter: está se acomodando. Nessa leitura, não há nada a tratar — só a cobrar.
O que muda a leitura é nomear o que está acontecendo. Isso não exige uma porta específica: psiquiatra, psicólogo, médico de família e os serviços de saúde mental da rede pública, como os CAPS, são caminhos legítimos e autônomos de entrada, e nenhum depende de encaminhamento do outro. O texto sobre saúde mental no trabalho trata do contexto mais amplo; a página sobre depressão em adultos reúne como o quadro é avaliado e quais são as linhas de tratamento, e o texto sobre prevenção de recaída cobre o período seguinte, que é quando o retorno ao trabalho costuma acontecer.
Do lado do trabalho, o que a revisão Cochrane sugere é que intervenção clínica e ajuste na situação de trabalho andam melhor juntas do que separadas.3 Ajuste aqui é concreto: carga, prazos, etapa de retomada gradual, clareza sobre prioridades. Nada disso substitui tratamento, e tratamento nenhum compensa uma rotina de trabalho que não comporta recuperação.
Perguntas frequentes
O que é presenteísmo?
É estar presente no trabalho e entregar menos do que se entregaria fora de um episódio de adoecimento. Em depressão, é a parte do impacto que não aparece em registro de falta, e os estudos de custo indicam que ela tende a pesar mais que a das ausências.
Preciso dizer meu diagnóstico ao meu empregador?
Pela Resolução CFM nº 2.381/2024, o diagnóstico ou o código da CID só consta do atestado por justa causa, em exercício de dever legal, ou quando a própria pessoa solicita ou concorda — e, nesse caso, a concordância fica expressa no documento. Dúvidas sobre direitos e consequências trabalhistas são jurídicas, e cabem a um advogado, a um sindicato ou à Defensoria Pública.
Afastar do trabalho ajuda ou atrapalha?
Não existe resposta única. A revisão Cochrane avaliou intervenções, não a decisão de afastar em si, e o que ela encontra é que combinar tratamento clínico com uma intervenção voltada ao trabalho provavelmente reduz dias de afastamento no primeiro ano. A decisão é individual e se toma com quem acompanha o caso.
Trabalhar menos bem durante um episódio depressivo é falta de esforço?
A pesquisa não descreve dessa forma. Ela observa que a intensidade dos sintomas se relaciona com queda de desempenho relatado, e que os sintomas que mais pesam nessa queda são de natureza cognitiva. O que está em jogo são processos de concentração e decisão, não disposição.
Existe antidepressivo melhor para quem precisa voltar a trabalhar?
A revisão Cochrane não encontrou evidência de diferença entre um antidepressivo e outro quanto ao efeito sobre afastamento. A escolha de medicação, quando indicada, se faz por outros critérios e em decisão compartilhada.
Quanto tempo leva para voltar?
Varia muito. A metanálise de coortes identificou fatores associados a retorno mais lento em grupos, como maior gravidade e presença de outras condições de saúde, mas com heterogeneidade importante entre os estudos. São associações populacionais, não previsão sobre uma pessoa.
Referências
- Evans-Lacko S, Knapp M. Global patterns of workplace productivity for people with depression: absenteeism and presenteeism costs across eight diverse countries. Soc Psychiatry Psychiatr Epidemiol. 2016;51(11):1525-1537. DOI: 10.1007/s00127-016-1278-4
- Johnston DA, Harvey SB, Glozier N, Calvo RA, Christensen H, Deady M. The relationship between depression symptoms, absenteeism and presenteeism. J Affect Disord. 2019;256:536-540. DOI: 10.1016/j.jad.2019.06.041
- Nieuwenhuijsen K, Verbeek JH, Neumeyer-Gromen A, Verhoeven AC, Bültmann U, Faber B. Interventions to improve return to work in depressed people. Cochrane Database Syst Rev. 2020;(12):CD006237. DOI: 10.1002/14651858.CD006237.pub4
- Ervasti J, Joensuu M, Pentti J, Oksanen T, Ahola K, Vahtera J, et al. Prognostic factors for return to work after depression-related work disability: A systematic review and meta-analysis. J Psychiatr Res. 2017;95:28-36. DOI: 10.1016/j.jpsychires.2017.07.024
- Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.381/2024 — normatiza a emissão de documentos médicos. DOU de 02/07/2024, Ed. 125, Seção 1, p. 277, com a alteração dada pela Resolução CFM nº 2.418/2024 (DOU de 09/10/2024). Texto oficial (PDF)
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Revisado pelo autor em

Dr. Diego Tinoco Rodrigues
Médico psiquiatra · CRM-MG 58241 · RQE 37921
Psiquiatra dedicado a TDAH, autismo e saúde mental do adulto, em consultório em Belo Horizonte e por telemedicina.
Sobre o autor

