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Manifesto

Por que psiquiatria, escrita e tecnologia

Escolhi a psiquiatria para cuidar. Comecei a escrever para compreender. Passei a construir tecnologia para ampliar esse cuidado. São três formas de perseguir a mesma coisa: entender melhor a experiência humana — e devolver isso em cuidado.

Sempre me intrigou o fato de que duas pessoas podem viver a mesma situação e sair dela com experiências completamente diferentes. Mesma perda, mesma pressão, mesma notícia — e reações que não se parecem em nada.

Boa parte do que faço nasce dessa pergunta. Ela é clínica quando estou no consultório, é literária quando estou escrevendo, e vira problema de engenharia quando o que atrapalha o cuidado é o sistema em volta dele.

Psiquiatria: para cuidar

Escuto histórias inteiras antes de nomear qualquer coisa. Isso não é estilo, é método: o diagnóstico descreve um padrão, e padrão só aparece quando há história suficiente para reconhecê-lo. Quem chega ao consultório raramente traz um sintoma isolado — traz uma trajetória em que aquele sintoma faz algum sentido.

O que atendo tem foco: adultos, com TDAH, autismo, depressão e transtornos de ansiedade — e o terreno mais amplo da neurodivergência. Ter foco é uma escolha sobre profundidade: prefiro conhecer bem um conjunto de quadros a atender todos superficialmente.

Escrita: para compreender

Escrevo para compreender. O que não cabe na consulta costuma caber numa página — e o exercício de explicar algo com clareza é o teste mais honesto de que eu entendi.

Daí vêm os artigos com evidência, que existem para informar com rigor; vêm os ensaios, que argumentam e admitem dúvida; e vêm os livros, que existem para outra coisa — dar forma ao que a linguagem clínica não alcança. As três escritas têm regras diferentes e a mesma origem: alguém tentando entender uma experiência que não é a sua. Tudo isso fica reunido em escrita.

Tecnologia: para ampliar o cuidado

Construo ferramentas que devolvem tempo a quem cuida. A tecnologia não cuida de ninguém — mas pode abrir espaço para quem cuida.

É essa a régua que uso: se um sistema não devolve tempo à conversa, ele não pertence ao consultório. Software clínico que exige mais atenção do médico do que o paciente à frente falhou no que se propunha, por mais completo que seja.

O que sustenta tudo isso

  • Ninguém melhora sendo apressado.

    Consulta curta cabe na agenda, não na história de uma pessoa. Boa parte do que importa aparece depois do momento em que a pressa mandaria concluir.

  • Compreender é uma forma de cuidado — talvez a primeira.

    Antes de qualquer conduta, existe alguém tentando entender o que está acontecendo consigo. Ser compreendido já muda o que a pessoa consegue fazer com o próprio sofrimento.

  • Um diagnóstico deveria abrir caminhos, nunca fechar uma pessoa.

    Nomear serve para orientar tratamento e dar vocabulário a quem não tinha. Quando vira etiqueta que explica tudo, deixou de ser útil e passou a atrapalhar.

  • Tecnologia boa é a que devolve tempo à conversa.

    Software em saúde não cuida de ninguém. O que ele pode fazer é tirar do caminho o que consome o tempo que deveria ser da pessoa à frente.

Onde isso aparece na prática

No consultório, em atendimento a adultos, presencial em Belo Horizonte e por telemedicina. Nos textos deste site, escritos entre uma consulta e outra, com as fontes abertas para conferência. E em projetos que existem porque a prática pediu — não porque o mercado pediu.

Se você chegou aqui procurando ajuda para si ou para alguém, o caminho mais direto é entender quando uma avaliação faz sentido. Se a urgência é agora, existe onde buscar ajuda imediata.

Formação, trajetória e registro profissional ficam em uma página à parte — aqui é sobre o porquê, não sobre o currículo.

Última revisão: 25 de julho de 2026.