AuDHD: quando os dois perfis pedem coisas opostas no mesmo dia

O que o apelido nomeia
AuDHD não é um diagnóstico: é um apelido que adultos passaram a usar para a situação de ser autista e ter TDAH ao mesmo tempo. Cada um dos dois tem critérios próprios, descritos no mesmo manual diagnóstico.5 O duplo diagnóstico é hoje corrente na literatura clínica — corrente, mas não pacífico: em artigo de opinião publicado na Frontiers in Psychiatry, Hours e colaboradores escrevem que a realidade neurobiológica da coocorrência entre TEA e TDAH segue sendo objeto de debate.4
O apelido pegou por um motivo prático: quem vive os dois costuma dizer que nenhuma das duas descrições, sozinha, dá conta do dia. Este texto reúne o que a pesquisa disponível mede sobre a coocorrência, o que ela ainda não mede, e o que isso muda na avaliação e no cuidado. A visão geral do tema está na página sobre AuDHD em adultos, e a descrição da coexistência dos dois quadros, em texto próprio.
Quanto se sabe sobre a frequência
A referência mais citada é a metanálise de Lai e colaboradores, publicada em 2019 no The Lancet Psychiatry, que reuniu 96 estudos observacionais sobre condições de saúde mental coocorrentes na população autista. A prevalência combinada de TDAH foi de 28% (intervalo de confiança de 95%: 25 a 32) — a mais alta entre as condições analisadas, acima dos transtornos de ansiedade, com 20%.1
Dois cuidados vêm do próprio estudo. O primeiro: as estimativas de amostras clínicas foram maiores que as de estudos populacionais e de registro1 — o número depende de onde se mede, e serviços especializados concentram quadros mais complexos. O segundo: idade, gênero, funcionamento intelectual e o país em que o estudo foi feito se associaram à variação entre os estudos, e ainda assim sobrou heterogeneidade substancial que esses fatores não explicam.1
Um terceiro cuidado não é do artigo, é de leitura: a metanálise incluiu pessoas autistas de todas as idades, não apenas adultas. Não há, entre as referências deste texto, metanálise de prevalência da coocorrência feita só com adultos. Os 28% descrevem a população autista em geral; lidos como "taxa de AuDHD entre adultos", diriam mais do que o dado permite.
O que aparece junto, em amostras clínicas de adultos
Pehlivanidis e colaboradores avaliaram 336 adultos encaminhados pela primeira vez na vida para avaliação de TDAH e/ou autismo, num serviço na Grécia. No grupo com os dois diagnósticos, 72,4% tinham ao menos uma outra condição psiquiátrica ao longo da vida. Nos demais grupos, as proporções foram 72,8% entre quem recebeu só o diagnóstico de TDAH, 50% entre quem recebeu só o de autismo e 76,1% entre os avaliados que não receberam nenhum dos dois. Em todos os grupos, a condição associada mais frequente foi o transtorno depressivo.2
O último número desarma uma leitura apressada: a proporção mais alta não foi a do grupo com os dois diagnósticos, e sim a de quem procurou avaliação e saiu dela sem nenhum dos dois. O que o estudo sustenta é a conclusão que os próprios autores tiram — todo adulto encaminhado merece avaliação clínica cuidadosa, com ou sem TDAH e autismo no fim dela.2 O grupo com os dois diagnósticos era pequeno, 28 pessoas, e o serviço era um só: o estudo descreve quem chega a um ambulatório, não a população.
Quando os dois perfis pedem coisas diferentes
A parte mais compartilhada da experiência de AuDHD é também a menos medida. A descrição que circula entre adultos com os dois diagnósticos é a de uma tensão interna: a rotina que sustenta a semana e o interesse novo que aparece na terça-feira; a previsibilidade que protege e a repetição que cansa; a vontade de estar com gente e o custo de estar com gente. Considere uma situação hipotética: alguém monta no domingo um sistema de organização detalhado, que funciona — e na quarta ele já não está em uso, não porque falhou, mas porque deixou de ser interessante.
É honesto dizer o que a evidência faz com isso: nenhum dos estudos reunidos aqui mede essa tensão diretamente. Ela aparece no relato, não na medida. Existe pesquisa sobre rotina, previsibilidade e incerteza e existe pesquisa sobre atenção e interesse, mas não um corpo de estudos que tenha quantificado o choque entre as duas demandas numa mesma pessoa. Quem descreve essa tensão não está exagerando: está relatando algo que a literatura ainda não foi medir.
O que dá para dizer sem ir além dos dados é mais modesto e ainda assim útil. Um plano desenhado para um dos dois perfis pode esbarrar na necessidade do outro — estratégia que depende de novidade constante tende a bater na necessidade de previsibilidade; estratégia que depende de repetição rígida tende a bater na necessidade de variação. Quando um método conhecido não pega, a explicação possível é essa, e não falta de empenho de quem tentou.
O que a avaliação precisa separar
Hours e colaboradores levantam uma pergunta clínica incômoda e pertinente: parte do que se lê como desatenção de TDAH numa pessoa autista poderia ser outra característica — atenção conjunta prejudicada, por exemplo — e parte da agitação poderia ter origem diferente da agitação típica do TDAH.4 O artigo é de opinião, sem dados próprios, e não encerra a questão. O que ele mostra é por que o duplo diagnóstico pede avaliação cuidadosa, e não a soma automática de duas listas de sintomas.
Na prática, isso significa histórico de vida inteiro e não só do momento atual, e a descrição de como cada dificuldade se comporta em contextos diferentes. Instrumentos padronizados ajudam a organizar a conversa e não fecham diagnóstico sozinhos — o que cada um faz e o que não faz está reunido no texto sobre instrumentos diagnósticos no autismo adulto. A avaliação pode começar por profissionais diferentes: psiquiatra, neurologista, psicólogo e neuropsicólogo têm escopos próprios e regulamentados, e nenhum depende de encaminhamento do outro para fazer o que lhe cabe.
Por que reconhecer os dois importa no dia a dia
Yerys e colaboradores aplicaram questionários a 724 adultos autistas, de 18 a 83 anos, recrutados num registro de pesquisa nos Estados Unidos. Os que se avaliaram com mais sintomas de TDAH também se avaliaram com menos independência nas atividades da vida diária e com pior qualidade de vida subjetiva.3 Os autores concluem que pesquisa adicional e melhores apoios para os sintomas de TDAH coocorrentes podem ser importantes para a independência e a qualidade de vida de adultos autistas.3
Duas ressalvas, ambas do desenho do estudo: os sintomas foram autorrelatados em questionário, não diagnosticados em avaliação clínica, e o estudo é transversal — mostra associação, e não permite dizer que uma coisa causou a outra.3 Ainda assim, o achado aponta para algo prático: descrever só um dos dois quadros deixa de fora parte do que pesa no cotidiano, e o apoio dirigido a essa parte costuma ser justamente o que está faltando.
Tratamento e ajustes, caso a caso
Não existe protocolo de AuDHD. Existe o tratamento de cada condição e de cada condição associada, decidido junto com a pessoa, a partir do que incomoda, do que já foi tentado e do que ela quer priorizar primeiro. Como o transtorno depressivo foi a condição associada mais frequente em todos os grupos do estudo grego,2 ele costuma entrar na conversa mesmo quando não foi o motivo da procura.
Sobre medicação, cabe uma observação de prudência e nada além dela: Hours e colaboradores registram que tratamento à base de anfetamina pode ter efeitos paradoxais ou indesejados na população autista.4 É artigo de opinião, não ensaio clínico, e não sustenta contraindicar nada — sustenta individualizar, acompanhar de perto e rever. O panorama do que a medicação trata e do que ela não trata em adultos autistas está em texto específico; a decisão é clínica e compartilhada, caso a caso.
Fora da medicação, o que costuma ajudar não é escolher um dos dois perfis e organizar a vida inteira por ele, e sim admitir os dois no mesmo plano: horário fixo para o que é inegociável e espaço livre para o que depende do interesse do dia; ambientes que possam ser ajustados conforme a necessidade sensorial do momento; apoio concreto para as tarefas de rotina que o estudo acima associa a menos independência.3 São ajustes, não soluções: funcionam para parte das pessoas, em parte dos dias, e precisam ser revistos quando deixam de funcionar.
Perguntas frequentes
AuDHD é um diagnóstico?
Não. É um apelido para a coocorrência de autismo e TDAH. São dois quadros distintos, cada um com critérios próprios no manual diagnóstico, e o duplo diagnóstico é corrente na literatura clínica. O termo é vocabulário da comunidade, útil para nomear a experiência, e não aparece em laudo.
Quantos adultos autistas têm TDAH?
A estimativa mais citada vem de uma metanálise que reuniu pessoas autistas de todas as idades, não apenas adultas, e encontrou prevalência combinada de TDAH de 28%.1 Os próprios autores observam que amostras clínicas dão números maiores que estudos populacionais.1 Não existe, até aqui, metanálise de prevalência feita só com adultos.
Os dois diagnósticos podem ser dados à mesma pessoa?
Sim, e o duplo diagnóstico é corrente na literatura. Segue em aberto a discussão sobre o que ele representa do ponto de vista neurobiológico, e dessa discussão vem um cuidado clínico: parte do que parece desatenção numa pessoa autista pode ser outra característica, e a avaliação precisa separar as duas coisas.
Por que estratégias conhecidas de TDAH às vezes não funcionam para mim?
Uma possibilidade é que a estratégia tenha sido pensada para um dos perfis e esbarre na necessidade do outro: novidade constante contra previsibilidade, repetição rígida contra variação. A pesquisa disponível não mediu essa tensão, mas ela aparece com frequência no relato de quem tem os dois diagnósticos. Ajustar o plano para caber os dois costuma render mais do que insistir num só.
Vale procurar avaliação se já tenho um dos dois diagnósticos?
Levar a dúvida à consulta vale. No estudo com adultos avaliados pela primeira vez, a maior parte dos grupos tinha ao menos uma condição associada ao longo da vida — inclusive quem não recebeu nenhum dos dois diagnósticos.2 Rever o quadro inteiro, em vez de só confirmar ou afastar um rótulo, é o que muda a conduta.
Referências
- Lai, Kassee, Besney, Bonato, Hull, Mandy, et al. Prevalence of co-occurring mental health diagnoses in the autism population: a systematic review and meta-analysis. Lancet Psychiatry. 2019;6(10):819-829. DOI: 10.1016/s2215-0366(19)30289-5
- Pehlivanidis, Papanikolaou, Mantas, Kalantzi, Korobili, Xenaki, et al. Lifetime co-occurring psychiatric disorders in newly diagnosed adults with attention deficit hyperactivity disorder (ADHD) or/and autism spectrum disorder (ASD). BMC Psychiatry. 2020;20(1). DOI: 10.1186/s12888-020-02828-1
- Yerys, McQuaid, Lee, Wallace. Co-occurring ADHD symptoms in autistic adults are associated with less independence in daily living activities and lower subjective quality of life. Autism. 2022;26(8):2188-2195. DOI: 10.1177/13623613221112198
- Hours, Recasens, Baleyte. ASD and ADHD Comorbidity: What Are We Talking About? Front Psychiatry. 2022;13. DOI: 10.3389/fpsyt.2022.837424
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed., texto revisado. 2022.
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Revisado pelo autor em

Dr. Diego Tinoco Rodrigues
Médico psiquiatra · CRM-MG 58241 · RQE 37921
Psiquiatra dedicado a TDAH, autismo e saúde mental do adulto, em consultório em Belo Horizonte e por telemedicina.
Sobre o autor

