Comorbidade: por que raramente vem um diagnóstico só

Quase nunca vem um diagnóstico só
Quem procura uma avaliação em saúde mental costuma chegar com uma pergunta de um nome só: é TDAH? é autismo? é depressão? A pergunta é razoável — e a resposta raramente é tão enxuta. Ter mais de uma condição ao mesmo tempo é frequente o bastante para que a avaliação já comece contando com essa possibilidade, em vez de tratá-la como exceção a ser descartada no fim.
O nome técnico é comorbidade, ou coocorrência: duas ou mais condições presentes na mesma pessoa no mesmo período. O verbete do glossário sobre comorbidade resume o conceito. Este texto trata de outra coisa: o que as revisões encontram quando tentam contar, por que elas discordam entre si, e o que a coocorrência muda para quem está sendo avaliado.
O que se mede em adultos autistas
Uma revisão sistemática com metanálise de trinta e cinco estudos, publicada no Psychological Medicine, reuniu as pesquisas que mediram ansiedade e depressão especificamente em adultos autistas — idade média em torno dos trinta anos, dezenas de milhares de participantes somados. As estimativas agregadas foram de 27% para algum transtorno de ansiedade no momento da avaliação e 42% ao longo da vida; para transtorno depressivo, 23% e 37%.1
Esses quatro números pedem para ser lidos junto com o que os próprios autores dizem em seguida. A primeira ressalva é de método: as estimativas variam conforme o instrumento usado — questionário ou entrevista — e também conforme a presença de deficiência intelectual associada na amostra.1 A segunda é de amostra: a literatura analisada tem heterogeneidade alta entre os estudos e depende muito de amostras clínicas, isto é, de pessoas que já estavam em algum serviço de saúde quando foram contadas.1 Quem já procurou ajuda tende a estar, em média, em situação diferente de quem não procurou — e isso puxa as cifras para cima.
O que fica, então, não é um número exato. É uma ordem de grandeza: entre adultos autistas, ansiedade e depressão aparecem com frequência suficiente para que ninguém trate o assunto como coincidência. O texto sobre depressão e ansiedade em adultos autistas destrincha o que cada um desses quadros costuma parecer nesse contexto.
A sobreposição entre autismo e TDAH
A revisão mais ampla sobre o tema, publicada no The Lancet Psychiatry, juntou noventa e seis estudos observacionais na população autista — e aqui vale dizer de saída que ela mistura crianças e adultos, não é um recorte de vida adulta. Entre as condições coocorrentes que ela estimou, a mais frequente foi o TDAH, com prevalência agregada de cerca de 28%; depois, transtornos de ansiedade com cerca de 20%, transtornos do sono-vigília com 13% e transtornos depressivos com 11%.2
Ou seja: nos estudos reunidos, perto de três em cada dez pessoas autistas tinham também diagnóstico de TDAH. É o dado que sustenta o uso crescente do termo AuDHD para descrever a combinação, assunto da página sobre AuDHD e do texto sobre quando os dois perfis pedem coisas opostas. A mesma revisão conclui, comparando com estimativas da população geral em análise descritiva e feita depois do planejamento inicial, que condições de saúde mental coocorrentes são mais prevalentes na população autista.2
Quando o ponto de partida é o TDAH
Do outro lado da mesma questão está a literatura que parte do TDAH em adultos. Uma revisão publicada no Neuroscience & Biobehavioral Reviews reuniu apenas estudos grandes — inquéritos populacionais, bases de seguro-saúde e registros nacionais, cada um com mais de dez mil pessoas — e comparou mais de meio milhão de adultos com TDAH a mais de catorze milhões sem o diagnóstico. As razões de chances agregadas foram de aproximadamente 5,0 para transtornos de ansiedade (intervalo de confiança de 3,29 a 7,46) e 4,5 para depressão maior (2,44 a 8,34) — intervalos largos, que já avisam que a estimativa não é precisa.3
Vale a pena desarmar esse número, porque ele é fácil de ler errado. Razão de chances não é porcentagem. Dizer que a razão de chances é 5 não é dizer que 5% ou 50% dos adultos com TDAH têm ansiedade — é dizer que, nessa comparação entre grupos, a chance de encontrar o diagnóstico de ansiedade foi cerca de cinco vezes maior no grupo com TDAH do que no grupo sem.3 Quanto isso corresponde em pessoas por cem depende da frequência de base em cada população, que essa revisão não converte. Quem quiser a leitura em porcentagem precisa de outro tipo de estudo.
Dois outros achados da mesma revisão ajudam a calibrar o assunto. A coocorrência elevada valeu tanto para homens quanto para mulheres: o sexo não funcionou como moderador, e a distribuição entre os sexos seguiu a que já se observa na população geral.3 E os próprios autores registram um limite: não havia dados suficientes para dizer como a coocorrência se comporta nas diferentes fases da vida adulta.3 Dito de outro modo, a literatura ainda não responde se o quadro de quem tem trinta anos é o mesmo de quem tem sessenta.
Por que dois estudos sobre a mesma coisa não dão o mesmo número
Alguém que leia três revisões sobre coocorrência vai encontrar três conjuntos de números diferentes, e isso não é descuido. É a soma de três fontes de variação, todas nomeadas pelos próprios autores.
- Quem foi contado. Na revisão do The Lancet Psychiatry, as estimativas vindas de amostras clínicas foram mais altas que as de estudos populacionais e de registro.2 Contar em serviço especializado e contar na população são operações diferentes.
- Com que instrumento. Uma revisão sistemática de trinta e dois estudos sobre comorbidade no TDAH adulto, publicada no PLOS ONE, conclui que a prevalência varia conforme o instrumento diagnóstico empregado e as características da população estudada — e os autores pedem padronização justamente por isso.4 A revisão em adultos autistas aponta o mesmo efeito do método.1 O texto sobre instrumentos diagnósticos no autismo adulto trata desse ponto em detalhe.
- Quanta variação sobrou. Na revisão da população autista, idade, gênero, funcionamento intelectual e país do estudo explicaram parte da divergência entre pesquisas — mas a heterogeneidade não explicada permaneceu substancial, acima de 95% pelo índice usado.2 Esse detalhe estatístico tem uma tradução prática importante: as porcentagens são médias de um conjunto de estudos muito diferentes entre si, não a probabilidade de uma pessoa específica.
Vale registrar o que nenhuma delas faz: estabelecer causa. Coocorrência é o que essas revisões medem — não quem causou o quê.
O que a coocorrência muda na avaliação
A implicação prática está num ponto que a revisão do PLOS ONE coloca na primeira linha: as comorbidades importam porque podem dificultar o diagnóstico do TDAH e piorar o prognóstico.4 Duas coisas decorrem disso.
A primeira é que um diagnóstico não encerra a investigação. Se o tratamento melhora parte do quadro e deixa outra parte intacta, isso é informação clínica útil — e não sinal de que nada funcionou. Pode significar que havia duas coisas acontecendo e só uma foi endereçada até ali.
A segunda é que sintomas compartilhados exigem tempo de avaliação, não um teste a mais. Dificuldade de concentração aparece no TDAH e em um episódio depressivo; inquietação aparece na ansiedade e no TDAH; dificuldade em situações sociais aparece no autismo e na ansiedade social. Os textos sobre TDAH ou ansiedade e TDAH ou depressão percorrem essas sobreposições uma a uma. Separá-las é trabalho de história clínica: desde quando, em que contextos, o que vem antes e o que vem depois.
Vale lembrar que nenhuma profissão tem monopólio dessa porta de entrada. Psiquiatra, psicólogo, neurologista e neuropsicólogo têm escopos próprios, regulamentados e autônomos, e nenhum depende de encaminhamento do outro para começar a trabalhar — o texto sobre qual profissional procurar compara os quatro. No serviço público, a avaliação pode começar na unidade básica de saúde ou no CAPS, conforme a organização da rede no município. E o acesso real varia muito: custo, tempo de espera, distância e flexibilidade no trabalho pesam na decisão de procurar ou não — o que não é falha de ninguém.
O que esses números não dizem
Uma lista de porcentagens sobre coocorrência pode ser lida de um jeito que nenhuma das revisões autoriza, e é melhor dizer isso explicitamente.
Elas não dizem que quem tem um diagnóstico vai acumular os outros. São médias de grupos, com heterogeneidade alta, e a variação não explicada entre estudos é grande o bastante para que os próprios autores recomendem cautela.2 Também não dizem o que causou o quê: nenhuma das quatro estabelece causa, e a revisão em adultos com TDAH é explícita ao registrar que não estabelece ordem temporal.3 E não dizem que mais nomes signifiquem um quadro mais grave — gravidade se avalia pelo impacto na vida da pessoa, não pela quantidade de rótulos no prontuário.
No sentido oposto, elas também não autorizam o contrário: descartar um segundo diagnóstico porque o primeiro já explica alguma coisa. Entre esperar que haja só um quadro e supor que há vários, a leitura que a evidência sustenta fica no meio — e é por isso que a avaliação pergunta mais do que a pessoa esperava responder. A página sobre neurodivergência reúne os clusters que mais se cruzam nessa conversa.
Perguntas frequentes
Comorbidade significa que meu caso é mais grave?
Não necessariamente. Ter mais de um diagnóstico descreve quantas condições estão presentes, não o tamanho do impacto na vida. Duas pessoas com os mesmos dois diagnósticos podem ter necessidades de suporte bem diferentes. A gravidade se avalia pelo prejuízo concreto em trabalho, estudo, relações e autocuidado.
Por que cada site mostra uma porcentagem diferente?
Porque as revisões contam populações diferentes, com instrumentos diferentes. Estimativas vindas de amostras clínicas são mais altas que as de estudos populacionais e de registro, e boa parte da variação entre estudos continua sem explicação;2 o instrumento diagnóstico também muda o resultado.4 Os números servem como ordem de grandeza, não como probabilidade individual.
Um diagnóstico pode esconder o outro?
Pode dificultar. A literatura em TDAH adulto registra que as comorbidades podem complicar o diagnóstico,4 porque sintomas compartilhados fazem um quadro parecer outro ou concentram a atenção em apenas um deles. É uma das razões pelas quais a avaliação revisita a história inteira em vez de parar no primeiro achado.
Preciso tratar tudo ao mesmo tempo?
Não existe regra única, e a decisão é individual. Em algumas situações se trata primeiro o que está mais agudo e se reavalia o resto depois, com o quadro mais claro; em outras, abordar a condição de base muda o que parecia independente. O plano é discutido caso a caso, com a pessoa.
Esses estudos foram feitos no Brasil?
Não. São revisões internacionais, e a que reuniu os estudos em adultos autistas registra explicitamente que não traz dado brasileiro.1 Elas descrevem o que foi medido nos países em que a pesquisa foi feita, o que é informação útil, mas não é a mesma coisa que um dado nacional.
Fui diagnosticado com uma coisa e continuo com queixas. E agora?
Isso é informação para levar de volta à avaliação, não sinal de que o tratamento fracassou. Melhorar uma parte do quadro e manter outra intacta é um achado clínico comum quando há mais de uma condição envolvida, e costuma orientar o passo seguinte.
Referências
- Hollocks MJ, Lerh JW, Magiati I, Meiser-Stedman R, Brugha TS. Anxiety and depression in adults with autism spectrum disorder: a systematic review and meta-analysis. Psychol Med. 2018;49(4):559-572. DOI: 10.1017/s0033291718002283
- Lai MC, Kassee C, Besney R, Bonato S, Hull L, Mandy W, et al. Prevalence of co-occurring mental health diagnoses in the autism population: a systematic review and meta-analysis. Lancet Psychiatry. 2019;6(10):819-829. DOI: 10.1016/s2215-0366(19)30289-5
- Hartman CA, Larsson H, Vos M, Bellato A, Libutzki B, Solberg BS, et al. Anxiety, mood, and substance use disorders in adult men and women with and without attention-deficit/hyperactivity disorder: A substantive and methodological overview. Neurosci Biobehav Rev. 2023;151:105209. DOI: 10.1016/j.neubiorev.2023.105209
- Choi WS, Woo YS, Wang SM, Lim HK, Bahk WM. The prevalence of psychiatric comorbidities in adult ADHD compared with non-ADHD populations: A systematic literature review. PLOS ONE. 2022;17(11):e0277175. DOI: 10.1371/journal.pone.0277175
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Revisado pelo autor em

Dr. Diego Tinoco Rodrigues
Médico psiquiatra · CRM-MG 58241 · RQE 37921
Psiquiatra dedicado a TDAH, autismo e saúde mental do adulto, em consultório em Belo Horizonte e por telemedicina.
Sobre o autor

