Depressão em homens adultos: como costuma aparecer e o que a pesquisa mede

Uma dúvida que chega por outro caminho
"Será que é depressão, se eu não ando chorando?" A dúvida aparece quando o que está acontecendo não se parece com a imagem mais divulgada do quadro — a tristeza visível, o choro, o recolhimento. No lugar disso há irritação curta, cansaço que não passa com descanso, trabalho ocupando o lugar de tudo, bebida mais frequente à noite, a sensação difusa de que algo está errado sem nome para o que é.
O critério diagnóstico não tem versão por gênero. O DSM-5-TR descreve o episódio depressivo maior a partir de humor deprimido ou perda de interesse e prazer somados a um conjunto de outros sintomas, com duração e prejuízo mínimos, e vale igualmente para qualquer pessoa adulta.4 O que a pesquisa investiga é outra coisa: se a expressão desse mesmo quadro e o caminho até o cuidado variam entre grupos. A resposta curta é que variam, menos do que o senso comum sugere, e de um jeito que importa na hora de avaliar.
O que a metanálise mede — e o tamanho do que ela encontra
A revisão sistemática com metanálise de Cavanagh e colaboradores, publicada na Harvard Review of Psychiatry, reuniu 32 estudos com 108.260 participantes adultos com depressão unipolar, de amostras clínicas e comunitárias, e testou 26 sintomas quanto ao efeito do gênero.1 O resultado principal está na primeira linha dos achados: os estudos indicam uma associação pequena, ainda que significativa, do gênero com alguns sintomas.1 Ou seja: há diferença, e ela é pequena. O quadro central é compartilhado.
Onde a diferença aparece, aparece assim. Homens deprimidos relataram, com frequência e intensidade maiores que mulheres deprimidas, uso problemático de álcool e outras substâncias (g de Hedges = 0,26; intervalo de confiança de 95%: 0,11–0,42) e comportamento de risco com pouco controle de impulso (g = 0,58; IC 95%: 0,47–0,69).1 Mulheres deprimidas relataram com frequência e intensidade maiores sintomas que estão dentro dos critérios diagnósticos de depressão, como humor deprimido (g = −0,20), alteração de apetite e peso (g = −0,20) e alteração do sono (g = −0,11).1
O g de Hedges é uma medida de tamanho de efeito: quanto dois grupos se afastam, em desvios-padrão. São os próprios autores que qualificam como pequena a associação encontrada.1 Em termos práticos: saber o gênero de alguém não permite prever como a depressão vai se apresentar nessa pessoa. O que a metanálise descreve é um deslocamento discreto de médias entre grupos grandes.
A conclusão dos autores é a parte mais aplicável do estudo: eles apontam a utilidade potencial de rastrear uso de substâncias, comportamento de risco e dificuldade de controle de impulso ao avaliar depressão em homens, e dizem que mais pesquisa é necessária para esclarecer apresentações específicas por gênero.1 É uma recomendação de ampliar a pergunta na avaliação, não de trocar os critérios.
Quando a régua muda, o número muda
Há um estudo que ilustra bem por que isso não é discussão de vocabulário. Martin, Neighbors e Griffith usaram os dados do National Comorbidity Survey Replication, um inquérito de saúde mental representativo da população dos Estados Unidos, e compararam duas escalas construídas por eles: uma que incluía sintomas chamados de alternativos e outra que somava esses aos sintomas tradicionais.2
Na amostra, homens relataram taxas mais altas de crises de raiva e agressividade, abuso de substâncias e comportamento de risco do que mulheres.2 Com a escala de sintomas alternativos, uma proporção maior de homens (26,3%) do que de mulheres (21,9%) preencheu critério para depressão.2 Com a escala que somava alternativos e tradicionais, as proporções ficaram equivalentes: 30,6% dos homens e 33,3% das mulheres, sem diferença estatística.2
A leitura honesta desse achado é de hipótese, não de conclusão. Parte da diferença de prevalência que se observa entre homens e mulheres pode depender de quais sintomas são medidos. Mas é um único inquérito, de um país, com escalas montadas pelos próprios autores e não validadas como instrumento diagnóstico — e eles mesmos escrevem que ainda é preciso esclarecer quais sintomas de fato descrevem a experiência de depressão em homens.2 Nada disso autoriza a equação inversa, a de ler raiva ou bebida como prova de depressão. Irritabilidade e uso de álcool têm muitas outras explicações possíveis, e nenhuma delas se resolve por fora de uma avaliação.
Normas de masculinidade e o caminho até o cuidado
A terceira peça da literatura não é sobre sintoma, é sobre trajeto. A revisão sistemática de Seidler e colaboradores, na Clinical Psychology Review, reuniu 37 estudos — quase metade deles qualitativos — sobre o papel da masculinidade na busca de ajuda para depressão por homens.3 O ponto de partida dos autores é que a conformidade a normas tradicionais de gênero masculino pode desencorajar a busca de ajuda e influenciar que tipo de serviço o homem procura.3
O que a revisão encontra é um efeito em três frentes: na forma como os sintomas são expressos, na atitude e no comportamento de procurar ajuda, e no modo de lidar com os sintomas depois.3 Os autores sugerem que adaptar a forma de oferecer o cuidado pode aumentar a adesão — formulado como possibilidade, não como resultado testado.3
Vale sublinhar o que essa literatura não diz, porque é fácil deslizar daqui para o estereótipo. Ela não afirma que todos os homens aderem a essas normas, nem que masculinidade causa depressão. Normas variam por cultura, geração, território e contexto, e a mesma pessoa pode se guiar por elas em uma área da vida e não em outra. E não procurar ajuda raramente é uma questão de caráter: pode ser dúvida sobre o que está acontecendo, custo, jornada de trabalho que não abre espaço para consulta, distância da rede de saúde, experiência anterior ruim, medo do que vai constar em um registro. A página sobre depressão em adultos reúne o panorama do quadro e dos caminhos de tratamento.
Como a dúvida costuma se apresentar
Considere uma situação hipotética. Alguém de 42 anos vem há meses dormindo mal, acorda sem descanso, perdeu o interesse por coisas que fazia no fim de semana e passou a responder torto em casa por motivos pequenos. No trabalho, está cumprindo as tarefas — com muito mais esforço do que antes e sem nenhuma satisfação. A cerveja da noite virou rotina e aumentou de quantidade. Perguntado se está triste, responde que não: está cansado, e irritado com a própria irritação.
Nessa descrição, os sintomas do critério estão lá — perda de interesse, alteração do sono, fadiga, redução de concentração —, só não estão organizados em volta da palavra tristeza. A perda de prazer e de interesse tem nome clínico, anedonia, e é um dos dois sintomas de entrada do episódio depressivo maior.4 O texto sobre o que é depressão percorre o conjunto dos critérios com mais calma.
O cenário é fictício e serve só para mostrar o encaixe. Ele também não é exclusivo de homens: há mulheres cuja depressão se apresenta assim, e homens cuja depressão se apresenta com tristeza evidente desde o primeiro dia. O que a pesquisa descreve são tendências de grupo, e tendência de grupo não é previsão sobre pessoa nenhuma.
O que esse recorte não autoriza
Três limites merecem ficar explícitos, porque o tema convive com muito estereótipo.
- Não existe um diagnóstico separado de "depressão masculina". Nenhum dos estudos citados propõe uma entidade diagnóstica nova. O que eles discutem é a sensibilidade da avaliação: quais perguntas são feitas e o que fica de fora quando só os sintomas mais divulgados são procurados.
- As diferenças medidas são pequenas e são médias. Dizer que um grupo sente menos, aguenta mais ou é menos afetado não é leitura do dado — é o oposto dele. O quadro central é o mesmo, e o sofrimento não vem em versões mais e menos legítimas.
- A literatura resumida aqui compara grupos definidos de forma binária. Os estudos trabalham com homens e mulheres como categorias fechadas e não descrevem a experiência de pessoas trans e não binárias, que não está medida nesses dados.
O que ajuda quando a dúvida é essa
O que resolve a dúvida é avaliação, não autodiagnóstico — e também não o seu contrário, esperar que passe sozinho. Alguns pontos práticos:
- Levar os sintomas que não parecem do tema. Irritabilidade, mudança no padrão de bebida, comportamento de risco, cansaço e perda de interesse são informações clínicas úteis, e a recomendação de perguntar por eles na avaliação de depressão em homens vem dos próprios autores da metanálise.1
- Nenhuma porta de entrada é obrigatória. A avaliação pode começar na unidade básica de saúde, com clínico geral, com psicólogo ou com psiquiatra; são caminhos legítimos e autônomos, e nenhum depende de encaminhamento do outro. No SUS, a UBS costuma ser o ponto de partida, com encaminhamento ao CAPS quando o caso indica.
- Descrever o funcionamento, não só o humor. Como está o sono, a energia, a concentração, o interesse, o apetite, o rendimento no trabalho. O post sobre depressão e trabalho trata da parte que aparece no expediente antes de aparecer em qualquer outro lugar.
- Tratamento é decisão compartilhada. Psicoterapia, medicação ou a combinação das duas são possibilidades que se discutem caso a caso, com benefício e risco individualizados; o texto sobre tratamento da depressão detalha as opções e o que se espera de cada uma.
- Quando o sofrimento for intenso ou houver piora rápida, a avaliação não espera a próxima semana. Procurar atendimento no serviço de saúde mais próximo é a conduta razoável.
Perguntas frequentes
Depressão em homem é diferente de depressão em mulher?
Os critérios diagnósticos são os mesmos. A metanálise disponível encontra diferenças pequenas em alguns sintomas: homens deprimidos relatam mais uso problemático de substâncias e comportamento de risco, e mulheres deprimidas relatam mais alguns dos sintomas que compõem os critérios, como humor deprimido, alteração de apetite e de sono. O quadro central é compartilhado.
Dá para ter depressão sem sentir tristeza?
Sim. Perda de interesse e de prazer é um dos dois sintomas de entrada do episódio depressivo maior no DSM-5-TR, ao lado do humor deprimido — só um deles precisa estar presente. Fadiga, alteração do sono, dificuldade de concentração e mudança de apetite completam o quadro.
Irritabilidade e beber mais são sinais de depressão em homens?
Podem acompanhar um quadro depressivo, e por isso vale falar deles na avaliação. Mas isoladamente não indicam depressão: têm muitas outras explicações possíveis, e a diferenciação é clínica.
Por que a depressão é diagnosticada menos em homens?
Não há resposta fechada. Uma hipótese testada em inquérito populacional é que parte da diferença dependa de quais sintomas são medidos: com uma escala que somava sintomas alternativos aos tradicionais, as proporções de homens e mulheres com critério preenchido ficaram equivalentes. É um estudo só, com escalas não validadas como instrumento diagnóstico. A revisão sobre masculinidade e busca de ajuda aponta outra parte da explicação, no trajeto até o serviço de saúde.
Onde começar se eu desconfio que é isso?
Em qualquer porta legítima: unidade básica de saúde, clínico geral, psicólogo ou psiquiatra. O que ajuda é levar a descrição do funcionamento dos últimos meses — sono, energia, interesse, concentração, apetite, uso de álcool — e não apenas a resposta à pergunta sobre tristeza. A primeira consulta existe justamente para organizar essas hipóteses.
Referências
- Cavanagh A, Wilson CJ, Kavanagh DJ, Caputi P. Differences in the Expression of Symptoms in Men Versus Women with Depression: A Systematic Review and Meta-analysis. Harv Rev Psychiatry. 2017;25(1):29-38. DOI: 10.1097/hrp.0000000000000128
- Martin LA, Neighbors HW, Griffith DM. The Experience of Symptoms of Depression in Men vs Women. JAMA Psychiatry. 2013;70(10):1100. DOI: 10.1001/jamapsychiatry.2013.1985
- Seidler ZE, Dawes AJ, Rice SM, Oliffe JL, Dhillon HM. The role of masculinity in men's help-seeking for depression: A systematic review. Clin Psychol Rev. 2016;49:106-118. DOI: 10.1016/j.cpr.2016.09.002
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed., texto revisado. 2022.
Este conteúdo é educacional e não substitui consulta médica individual.
Este conteúdo tem caráter informativo e educacional e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento com um profissional de saúde. Em caso de sofrimento intenso ou situação de risco, procure ajuda imediata — CVV 188 (24h, ligação gratuita) ou o serviço de emergência mais próximo.
Revisado pelo autor em

Dr. Diego Tinoco Rodrigues
Médico psiquiatra · CRM-MG 58241 · RQE 37921
Psiquiatra dedicado a TDAH, autismo e saúde mental do adulto, em consultório em Belo Horizonte e por telemedicina.
Sobre o autor

