TDAH e direção: o que a pesquisa descreve sobre o trânsito

O número que circula e o que a metanálise fez com ele
Quem procura informação sobre TDAH e trânsito esbarra rápido numa afirmação: a de que motoristas com TDAH teriam risco quase quatro vezes maior de se acidentar. Ela circula há décadas e aparece em matéria de jornal, em material de divulgação e em conversa de consultório. Uma metanálise publicada em Accident Analysis & Prevention, que reuniu dezesseis estudos sobre risco de acidente em motoristas com TDAH, examinou essa afirmação diretamente e a considera refutada. Segundo os autores, a estimativa original estava associada à presença de transtorno opositor desafiante e/ou de transtorno de conduta na amostra, e não ao TDAH em si — mas seguiu sendo repetida, incorretamente, por duas décadas.1
Derrubar o número de quatro vezes não é o mesmo que dizer que não há nada medido. Há. Só que o que a pesquisa mede tem outra ordem de grandeza, e descrevê-la com precisão muda bastante o tom da conversa.
Qual é o tamanho do risco que os estudos encontram
A medida usada nesses estudos é o risco relativo: quantas vezes a chance de um desfecho num grupo é maior ou menor que a de outro grupo. Um risco relativo de 1 significa chance igual; 2 significa o dobro. Na metanálise, a estimativa global para motoristas com TDAH foi de 1,36 (intervalo de confiança de 95%: 1,18 a 1,57) sem controlar exposição, 1,29 (1,12 a 1,49) ao corrigir viés de publicação e 1,23 (1,04 a 1,46) ao controlar exposição — isto é, ao levar em conta quanto cada grupo dirige.1
Para dimensionar: os autores observam que um risco relativo de 1,23 é exatamente o mesmo encontrado para motoristas com doenças cardiovasculares.1 É um aumento real e mensurável, não um fator que separe duas categorias de motorista. E eles vão além: como pessoas com TDAH parecem dirigir mais que os grupos de comparação, e como a maior parte dos estudos não tem informação sobre exposição, consideram mais provável que o risco verdadeiro esteja abaixo de 1,23 do que acima.1
Comorbidade muda a conta
A metanálise também encontra algum apoio para a hipótese que explicava o número antigo: a de que o risco é maior quando há transtorno opositor desafiante, transtorno de conduta ou outros problemas de conduta associados. Numa amostra de motoristas com TDAH em que a maioria tinha essas condições, o risco relativo estimado foi de 1,86 (1,27 a 2,75); numa amostra sem comorbidade, foi de 1,31, com intervalo de 0,96 a 1,81 — faixa que inclui o valor 1 e, portanto, também é compatível com ausência de aumento.1
Esse é um padrão que se repete em vários temas do diagnóstico em adultos, e é a razão de a avaliação olhar o quadro inteiro em vez de uma sigla isolada. O que aparece junto costuma pesar tanto quanto o que dá nome ao caso — o verbete sobre comorbidade trata disso.
Multas de velocidade, erros de direção e a diferença entre os dois
Outra afirmação frequente é a de que motoristas com TDAH infringem mais as leis de trânsito, em bloco. A metanálise pede que essa frase seja modificada: motoristas com TDAH têm, sim, mais autuações por excesso de velocidade, mas não mais autuações por dirigir embriagado ou de forma imprudente que motoristas sem TDAH.1
Os autores apontam ainda um limite metodológico de todos os estudos incluídos: nenhum distingue infração deliberada de erro de direção. A distinção importa porque a primeira é sabidamente associada a acidentes, e a segunda não.1 Como explicação possível para o excesso de velocidade, eles levantam uma hipótese — não um achado — de que dirigir mais rápido estimularia atenção e tempo de reação.1
O que as coortes de registro acrescentam
Uma coorte publicada no JAMA Psychiatry acompanhou 17.408 pacientes com diagnóstico de TDAH nos registros nacionais da Suécia, entre 2006 e 2009, com desfecho definido como acidente de transporte grave: atendimento hospitalar de emergência ou morte por acidente de transporte. Comparados a pessoas sem TDAH, os homens com TDAH tiveram razão de risco ajustada de 1,47 (1,32 a 1,63) e as mulheres, de 1,45 (1,24 a 1,71).2
Duas ressalvas acompanham esse dado e vêm do próprio desenho do estudo. "Acidente de transporte" é categoria mais ampla que acidente de carro, e os dados são de um único país, com sua frota, sua fiscalização e seu sistema de saúde. Mesmo assim, a ordem de grandeza conversa com a da metanálise: um aumento de cerca de meia vez, não de várias vezes.
Medicação: o que a comparação da pessoa consigo mesma mostra
Os dois estudos de registro usam um desenho que vale explicar, porque é o que dá força ao achado. Em vez de comparar quem toma medicação com quem não toma — grupos que diferem em muitas outras coisas —, eles comparam a mesma pessoa em períodos diferentes: meses em que recebeu medicação contra meses em que não recebeu. Características estáveis de cada indivíduo deixam de confundir a comparação.
Na coorte sueca, nos homens, os períodos com medicação se associaram a redução de 58% no risco (razão de risco 0,42; 0,23 a 0,75); nas mulheres, a associação não foi estatisticamente significativa. Os autores estimam que entre 41% e 49% dos acidentes entre os homens com TDAH da amostra poderiam ter sido evitados caso estivessem em tratamento durante todo o seguimento — e formulam a conclusão com cautela deliberada, dizendo que o risco "parece possivelmente" ser reduzido pela medicação, ao menos entre homens.2
Um estudo posterior, com 2.319.450 pacientes de uma base de seguro de saúde dos Estados Unidos entre 2005 e 2014 (idade média de 32,5 anos, incluindo várias faixas etárias), aplicou o mesmo tipo de análise e encontrou, nos meses com medicação, risco 38% menor de ida à emergência por acidente de carro entre homens (razão de chances 0,62; 0,56 a 0,67) e 42% menor entre mulheres (0,58; 0,53 a 0,62). Reduções semelhantes apareceram em todas as faixas etárias e em várias análises de sensibilidade.3
O que esses números não autorizam dizer é igualmente importante. São estudos observacionais: mostram associação, não causa. O dado de medicação é de dispensação de receita, não de uso efetivo. O desfecho medido é ida à emergência, não todo acidente. E nada disso se traduz em indicação de tratamento para uma pessoa específica: se medicar, com o quê e por quanto tempo é decisão individual, tomada em conjunto, pesando indicação, efeitos e preferências — o que a página sobre medicação psiquiátrica detalha.
Risco de grupo não é previsão sobre uma pessoa
Todos os números acima descrevem grupos. Um risco relativo pouco acima de 1 diz que, entre milhares de motoristas acompanhados por anos, a contagem de acidentes foi um pouco maior num conjunto que no outro. Não diz o que vai acontecer com quem está lendo, nem identifica quem, dentro do grupo, teve ou terá acidente.
Isso tem uma consequência prática no uso do dado. Ele serve para pensar política pública, desenho de pesquisa e conversa clínica sobre tratamento. Não serve como argumento para classificar motorista, nem como motivo de constrangimento. Um número de grupo aplicado a um indivíduo deixa de ser estatística e vira rótulo.
Também vale lembrar que dificuldades com atenção e com a passagem do tempo têm graus muito diferentes entre pessoas com o mesmo diagnóstico — o texto sobre percepção do tempo no TDAH mostra como até medidas de laboratório divergem entre si. Diagnóstico não é descrição de desempenho.
O que tende a ajudar quem dirige
Os itens abaixo não são achados dos estudos citados: são medidas gerais de organização, que reduzem a disputa por atenção enquanto se dirige e valem para qualquer motorista. Entram aqui porque é a pergunta que costuma vir depois da leitura dos dados.
- Resolver o que for possível antes de dar a partida. Destino no navegador, música escolhida, mensagem respondida — decisões tomadas paradas competem menos com a direção.
- Deixar o celular fora do alcance. Guardar o aparelho longe da mão é mais confiável que depender de resistir ao impulso de pegá-lo a cada notificação.
- Dar margem de tempo ao trajeto. Sair com folga muda o custo de cada decisão no caminho, e isso vale com ou sem diagnóstico.
- Tratar cansaço e privação de sono como fator próprio. Dirigir com sono atrapalha a atenção de qualquer pessoa, e o sono é um fator à parte do diagnóstico — vale tratá-lo como tal.
- Levar o assunto para a consulta. Se dirigir faz parte da rotina ou do trabalho, é informação clínica relevante: entra na conversa sobre tratamento e sobre o horário das doses, como qualquer outra atividade que ocupa parte do dia.
Para quem está antes disso, na dúvida sobre o próprio diagnóstico, o caminho é a avaliação clínica, descrita na página sobre TDAH em adultos e no texto sobre como é feito o diagnóstico de TDAH em adultos.
Perguntas frequentes
Ter TDAH faz de alguém um motorista perigoso?
Os estudos descrevem, em grupo, um aumento modesto na contagem de acidentes — da ordem de uma vez e pouco em relação a quem não tem o diagnóstico, segundo a metanálise disponível. Isso é uma medida de conjunto, não uma previsão sobre uma pessoa, e não permite classificar ninguém como motorista perigoso a partir do diagnóstico.
De onde veio a ideia de risco quatro vezes maior?
De um estudo do início dos anos 1990, cuja amostra tinha, em grande parte, transtorno opositor desafiante ou transtorno de conduta associados. A metanálise que reuniu a literatura atribui a estimativa a essas condições, e não ao TDAH, e considera a afirmação refutada.1
A medicação para TDAH reduz acidente?
Dois estudos de registro, um sueco e um norte-americano, encontraram menos acidentes nos períodos em que a mesma pessoa estava recebendo medicação. São estudos observacionais: mostram associação, não relação de causa, e os próprios autores formulam a conclusão com cautela. A decisão sobre tratar é individual.
O risco é igual para homens e mulheres?
Para o risco de acidente, as estimativas suecas foram parecidas entre homens e mulheres. Já na associação com medicação os resultados diferem entre os dois estudos: na coorte sueca ela foi significativa só entre homens, enquanto no estudo norte-americano apareceu em ambos. Não há, nesses dados, explicação fechada para a diferença.
Esses dados valem para o Brasil?
Com reservas. Os estudos de registro são da Suécia e dos Estados Unidos, países com frota, fiscalização, malha viária e sistema de saúde diferentes dos daqui, e a metanálise reúne estudos majoritariamente de fora do Brasil. A ordem de grandeza ajuda a pensar; os valores exatos não são transportáveis.
Referências
- Vaa T. ADHD and relative risk of accidents in road traffic: A meta-analysis. Accid Anal Prev. 2014;62:415-425. DOI: 10.1016/j.aap.2013.10.003
- Chang Z, Lichtenstein P, D'Onofrio BM, Sjölander A, Larsson H. Serious Transport Accidents in Adults With Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder and the Effect of Medication. JAMA Psychiatry. 2014;71(3):319-325. DOI: 10.1001/jamapsychiatry.2013.4174
- Chang Z, Quinn PD, Hur K, et al. Association Between Medication Use for Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder and Risk of Motor Vehicle Crashes. JAMA Psychiatry. 2017;74(6):597-603. DOI: 10.1001/jamapsychiatry.2017.0659
Este conteúdo é educacional e não substitui consulta médica individual.
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Revisado pelo autor em

Dr. Diego Tinoco Rodrigues
Médico psiquiatra · CRM-MG 58241 · RQE 37921
Psiquiatra dedicado a TDAH, autismo e saúde mental do adulto, em consultório em Belo Horizonte e por telemedicina.
Sobre o autor

