O problema da dupla empatia: mal-entendidos entre autistas e não autistas

O que a expressão nomeia
Quando uma conversa entre uma pessoa autista e uma pessoa não autista termina em mal-entendido, a explicação costuma ir para um lado só: faltou leitura social de quem é autista. A expressão "problema da dupla empatia" nomeia outra hipótese — a de que a dificuldade está no encontro entre dois modos de perceber, expressar e inferir intenção que têm pouca experiência um do outro, e não dentro de uma das duas pessoas. O termo vem de um artigo publicado em 2012 na revista Disability & Society, de Damian Milton, que o traz no título.1
A diferença entre as duas leituras não é retórica. Se a dificuldade está só de um lado, tudo que se pode fazer é treinar esse lado. Se ela é do encontro, o ajuste tem dois endereços possíveis — e passa a fazer sentido investigar o que acontece quando o encontro é entre pessoas do mesmo grupo. Foi exatamente isso que um estudo publicado em 2020 na revista Autism se propôs a medir.2
O estudo que testou a ideia
A equipe do estudo montou nove grupos de oito pessoas cada um: em três deles, todos eram autistas; em outros três, nenhum era; e três eram grupos mistos, metade e metade.2 A tarefa era a de um telefone sem fio controlado. Uma história era contada a uma pessoa, que a repassava à seguinte, que repassava à próxima, até todo o grupo ter ouvido. Os pesquisadores então contaram quantos detalhes da história sobreviveram em cada etapa da cadeia.2
O resultado tem duas partes, e as duas importam. A primeira: as pessoas autistas compartilharam informação entre si tão bem quanto as pessoas não autistas compartilharam entre si.2 As cadeias só de autistas preservaram tanta informação quanto as cadeias só de não autistas. A segunda: nos grupos mistos, passou bem menos informação.2 Os participantes dos grupos mistos também relataram menos sintonia com a pessoa com quem estavam falando.2
Os autores descrevem o achado como a existência de problemas seletivos quando pessoas autistas e não autistas interagem — e registram que as pessoas autistas têm a habilidade de compartilhar informação bem entre si e de experimentar boa sintonia.2 Vale notar que o próprio estudo parte do enquadramento clínico de que o autismo é definido por "déficits de comunicação social", e é esse enquadramento que o resultado tensiona: a transmissão caiu num arranjo específico de interlocutores, não sempre que havia uma pessoa autista na cadeia.
O que o achado não diz
Um estudo com setenta e duas pessoas e uma tarefa de laboratório2 não resolve a questão, e tratar o resultado como maior do que ele é seria repetir, do outro lado, o erro que ele corrige. O que o estudo mediu foi transmissão de detalhes de uma história e sintonia relatada numa interação única, num ambiente de pesquisa.2 Ele não mediu amizade, trabalho, vida em família ou relação que dura anos.
Ele também não diz que pessoas autistas não têm dificuldade de comunicação — dificuldade de comunicação social está entre os critérios diagnósticos do DSM-5-TR, e muita gente autista descreve essa dificuldade como real e custosa na própria vida.6 O que o resultado acrescenta é que parte do custo observado numa conversa pode vir da combinação de interlocutores, e essa parte não é visível quando se olha só para um dos dois.
Como o mal-entendido aparece
Considere uma situação fictícia. Numa reunião, alguém responde a uma proposta com "isso não vai funcionar porque o prazo não fecha" e volta a olhar a planilha. A pessoa que fez a proposta entende que foi hostilizada. Quem respondeu entende que deu a informação mais útil que tinha, no menor número de palavras, e que a questão do prazo era o que importava. Nenhuma das duas mentiu sobre o que viveu. As duas leram a mesma cena com gramáticas diferentes: uma esperava um amortecedor social antes da objeção, a outra tratou a ausência de amortecedor como respeito pelo tempo de todo mundo.
O mesmo desencontro reaparece em formatos reconhecíveis:
- Contato visual reduzido lido como desinteresse, quando desviar o olhar pode ser justamente o que torna a escuta possível — um dos padrões que o texto sobre ser lido como frio ou desinteressado detalha.
- Resposta literal a uma pergunta que era convite ("você viu que a cozinha está uma bagunça?").
- Entonação constante lida como falta de entusiasmo, ou entonação intensa lida como exagero.
- Movimento repetitivo de autorregulação interpretado como nervosismo ou desatenção, quando ele pode ser justamente o que permite seguir na conversa, como descreve o texto sobre stimming em adultos.
- Pausa longa antes de responder lida como desatenção, quando pode ser o tempo de formular.
Em todos esses casos, as duas pessoas saem com uma versão coerente do que aconteceu, e as duas versões não combinam. É essa simetria que a expressão "dupla" tenta capturar.
Quem costuma ser encarregado do ajuste
Na prática, o ajuste raramente é dividido. Uma revisão de escopo publicada em 2018 na revista Autism reuniu 134 estudos sobre emprego de pessoas autistas.5 Dos 36 que avaliaram intervenções, o foco esteve principalmente em modificar características do autismo para melhorar o desempenho no trabalho, com pouca consideração do impacto dos fatores contextuais na participação.5 A revisão destaca o papel dos fatores ambientais como barreira e como facilitador, e a necessidade de intervenções que atuem sobre o contexto.5 O que a pesquisa descreve sobre adaptações concretas está reunido no texto sobre autismo e trabalho.
Quando o ajuste fica todo de um lado, ele tem um nome e um custo. A estratégia de monitorar e suprimir a própria expressão para parecer menos destoante é o que se chama de masking, e o custo desse esforço sustentado é assunto do próprio verbete.
Há indício de que a leitura externa não é fixa. Num estudo publicado em 2019 na Autism, 32 pessoas autistas adultas foram ouvidas sobre stimming em entrevistas e grupos focais;3 a análise temática identificou dois temas — o stimming como mecanismo de autorregulação e como algo que carece de aceitação social, mas que pode passar a ser aceito quando há entendimento.3 Os participantes se opuseram a tratamento que busque eliminar o comportamento.3 O segundo tema é a parte operativa: informação muda a leitura.
Por que isso não é questão de etiqueta
Desencontro repetido tem efeito acumulado. Num estudo australiano publicado em 2019, 220 adultos autistas e 146 adultos não autistas responderam a uma escala de solidão; o grupo autista pontuou significativamente mais alto.4 Insatisfação com o suporte social associou-se a mais solidão nos dois grupos.4 O achado é correlacional e vem de autorrelato: ele não identifica causa, e não permite dizer que o mal-entendido produziu a solidão.
Um estudo anterior, com 108 adultos autistas, já havia encontrado que a solidão se associava a mais depressão e ansiedade e a menos satisfação com a vida e autoestima, mesmo quando os sintomas de autismo eram estatisticamente controlados; e que maior quantidade e qualidade de amizades se associavam a menos solidão.7 Também transversal, também autorrelato — associação, não causa. O que os dois juntos sugerem é que a qualidade do contato social é variável relevante por si, e não um detalhe de boas maneiras. O texto sobre solidão e amizade na vida adulta autista trata do tema em detalhe, e a página sobre autismo em adultos reúne o conjunto.
O que ajuda, nos dois endereços
Nada disso aponta para uma técnica única, e não há aqui promessa de que a conversa deixe de falhar. O que o enquadramento da dupla empatia sugere é mais modesto e mais aplicável: tratar o mal-entendido como informação sobre a passagem entre dois modos, e não como veredito sobre uma das pessoas.
- Dizer o que se quis dizer, em vez de inferir o que o outro quis. "Quando você disse que o prazo não fecha, eu entendi que a proposta era ruim. Era isso?" custa uma frase e desfaz muita coisa.
- Tornar explícito o que ficaria implícito. Pedido como pedido, convite como convite, prazo como prazo. Serve aos dois lados: reduz adivinhação em quem fala e em quem ouve.
- Combinar o canal. Escrito, voz, presencial — cada um carrega informação diferente, e a preferência varia por pessoa, não por grupo.
- Aceitar o tempo de formular. Pausa não é ausência de resposta; interromper a pausa costuma custar a resposta.
- Não tratar expressão como prova de conteúdo. Entonação, postura e olhar são pistas lidas pela gramática de quem olha — e é justamente aí que as duas leituras divergem.
- Procurar contato com pares. Grupos de pessoas autistas adultas são, para muita gente, onde a conversa custa menos — e o estudo de 2020 dá a essa experiência um correlato medido.2
Quando o desencontro aparece junto com cansaço persistente, perda de interesse ou ansiedade que não desliga, isso é motivo para avaliação própria, e não algo a resolver na conversa. Uma primeira consulta serve para organizar essa dúvida sem pressa de fechar diagnóstico.
Perguntas frequentes
Dupla empatia quer dizer que pessoas autistas não têm dificuldade de comunicação?
Não. Dificuldade de comunicação social está entre os critérios diagnósticos do DSM-5-TR,6 e muita gente autista descreve essa dificuldade como real na própria vida. O que a expressão acrescenta é que parte do custo observado numa conversa depende de quem são os dois interlocutores, e não só de um deles.
Isso muda algo no diagnóstico de autismo?
Não muda critério. O diagnóstico em adultos segue sendo clínico, baseado em histórico de desenvolvimento, funcionamento atual e critérios do DSM-5-TR6 ou da CID-11.8 O que o enquadramento sugere é cautela ao interpretar uma interação única como medida do repertório social de alguém.
Se a dificuldade é mútua, de quem é a responsabilidade de se adaptar?
A pergunta não tem resposta única, e depende do contexto e de quem tem margem para ajustar. O que a pesquisa sobre emprego registra é que as intervenções estudadas se concentraram em modificar características da pessoa autista, com pouca atenção aos fatores do ambiente5 — ou seja, o ajuste descrito na literatura tem ficado concentrado de um lado.
Grupos só de pessoas autistas se entendem melhor do que grupos mistos?
No estudo de 2020, as cadeias formadas só por pessoas autistas transmitiram tanta informação quanto as formadas só por pessoas não autistas, e as cadeias mistas transmitiram menos.2 É um estudo, com uma tarefa, num ambiente de pesquisa — não é uma regra sobre relações da vida real.
O que fazer quando o mal-entendido acontece sempre com a mesma pessoa?
Nomear o padrão em vez da intenção costuma abrir mais caminho: descrever a cena em que o ruído aparece, dizer o que cada um entendeu e combinar um formato para a próxima vez. Quando o desencontro vem acompanhado de ansiedade intensa ou de humor rebaixado persistente, o texto sobre depressão e ansiedade em adultos autistas trata do que é avaliado nesses casos.
Referências
- Milton DEM. On the ontological status of autism: the 'double empathy problem'. Disabil Soc. 2012;27(6):883-887. DOI: 10.1080/09687599.2012.710008
- Crompton CJ, Ropar D, Evans-Williams CV, Flynn EG, Fletcher-Watson S. Autistic peer-to-peer information transfer is highly effective. Autism. 2020;24(7):1704-1712. DOI: 10.1177/1362361320919286
- Kapp SK, Steward R, Crane L, et al. 'People should be allowed to do what they like': Autistic adults' views and experiences of stimming. Autism. 2019;23(7):1782-1792. DOI: 10.1177/1362361319829628
- Ee D, Hwang YIJ, Reppermund S, et al. Loneliness in Adults on the Autism Spectrum. Autism Adulthood. 2019;1(3):182-193. DOI: 10.1089/aut.2018.0038
- Scott M, Milbourn B, Falkmer M, et al. Factors impacting employment for people with autism spectrum disorder: A scoping review. Autism. 2018;23(4):869-901. DOI: 10.1177/1362361318787789
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed., texto revisado. 2022.
- Mazurek MO. Loneliness, friendship, and well-being in adults with autism spectrum disorders. Autism. 2013;18(3):223-232. DOI: 10.1177/1362361312474121
- World Health Organization. ICD-11 for Mortality and Morbidity Statistics. Genebra: OMS; 2022. Disponível em: icd.who.int/browse/latest-release/mms/pt
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Revisado pelo autor em

Dr. Diego Tinoco Rodrigues
Médico psiquiatra · CRM-MG 58241 · RQE 37921
Psiquiatra dedicado a TDAH, autismo e saúde mental do adulto, em consultório em Belo Horizonte e por telemedicina.
Sobre o autor

