Solidão e amizade na vida adulta autista: o que a pesquisa descreve

Estar só e sentir-se só não são a mesma coisa
Uma pessoa pode passar o domingo inteiro sozinha e terminar o dia descansada. Outra pode sair de uma mesa com dez pessoas e voltar para casa com a impressão de não ter encontrado ninguém. A pesquisa dá nomes diferentes às duas situações: isolamento social é a medida objetiva de quanto contato existe; solidão é a avaliação subjetiva de que o contato que se tem fica aquém do que se queria. O texto sobre a diferença entre solidão e isolamento social desenvolve essa separação.
A distinção pesa na vida adulta autista, porque de fora as duas coisas costumam ser lidas como uma só. Agenda vazia é interpretada como sofrimento; agenda cheia, como assunto resolvido. Nenhuma das duas leituras se sustenta — e o que os estudos sobre solidão em adultos autistas medem é exatamente a parte que não aparece na agenda.
O que os estudos medem quando perguntam sobre solidão
Solidão não é categoria diagnóstica. É uma experiência que se mede por escalas de autorrelato, em que a pessoa responde o quanto se sente próxima, acompanhada e compreendida. Uma das mais usadas é a escala UCLA de solidão.
Ee e colaboradores aplicaram essa escala a 220 adultos autistas e 146 adultos não autistas, a partir de um estudo longitudinal australiano com adultos no espectro.2 Os adultos autistas pontuaram significativamente mais alto na escala de solidão do que os não autistas.2 O estudo organizou os possíveis determinantes a partir de um modelo clássico de solidão e examinou, por regressão, dados demográficos, traços autistas, suporte social, depressão, ansiedade e autoeficácia.2
Dois detalhes do desenho merecem nota, porque mudam como o achado deve ser lido. O primeiro: além dos questionários, os autores fizeram análise temática de respostas abertas dos participantes autistas sobre a própria experiência de socialização — ou seja, a pontuação da escala foi acompanhada do que as pessoas escreveram por conta própria. O segundo: um painel consultivo de adultos autistas participou do desenho e da interpretação do estudo.2 É pesquisa feita com a população estudada, não apenas sobre ela.
O que a solidão aparece acompanhando
Mazurek examinou solidão, amizade e funcionamento emocional em 108 adultos autistas, por medidas de autorrelato.1 A solidão apareceu associada a mais sintomas de depressão e de ansiedade e a menos satisfação com a vida e autoestima — e essa associação se manteve mesmo depois de controlar estatisticamente os sintomas do espectro.1
Esse "mesmo depois de controlar" é a parte que costuma se perder na citação apressada. Ele indica que, naquele conjunto de dados, a associação entre sentir-se só e o mal-estar não se explicava apenas pela quantidade de traços autistas: ela permaneceu quando esses sintomas foram levados em conta na análise. É diferente de dizer que o mal-estar vem do autismo.
Duas ressalvas, que os próprios autores fazem. O estudo é de autorrelato e não estabelece direção: ele não diz se a solidão precede o mal-estar, se o acompanha ou se as duas coisas se alimentam. E aquela amostra não tinha grupo de comparação não autista — comparação é o que o estudo australiano faz, não este. A frequência com que quadros de depressão e de ansiedade aparecem entre adultos autistas é assunto de um texto próprio.
Amizade: o que a quantidade e a qualidade parecem mudar
No mesmo estudo, maior quantidade e maior qualidade de amizades apareceram associadas a menos solidão.1 Até aí, o esperado. O achado menos óbvio vem em seguida, e tem duas partes.
A primeira: a amizade não funcionou como moderadora da relação entre solidão e bem-estar.1 Em linguagem comum, ter amigos não amorteceu o efeito que a solidão tinha sobre o bem-estar. Quem se sentia só e tinha amigos não estava protegido por eles dessa relação.
A segunda: o número de amigos teve efeito próprio e independente sobre autoestima, depressão e ansiedade, para além do efeito da solidão.1 Ou seja, as duas coisas parecem contribuir por caminhos distintos, e não uma através da outra.
A leitura prática disso é sóbria: reduzir a solidão e ampliar o círculo de amizades não são o mesmo projeto, e resolver um não resolve automaticamente o outro. É uma conclusão que desautoriza tanto o conselho de "sair mais de casa" quanto a ideia de que basta ter com quem contar.
O que apareceu ligado à solidão — nos dois grupos
O estudo australiano encontrou duas variáveis associadas a maior solidão, e elas apareceram tanto no grupo autista quanto no não autista: a insatisfação com o suporte social recebido e o subdomínio de habilidades sociais do Autism Quotient, o questionário usado na pesquisa.2
O primeiro é a chave do parágrafo. O que se associou à solidão não foi a quantidade de suporte, e sim a insatisfação com ele — a distância entre o apoio que a pessoa recebe e o apoio de que sentia precisar. Quem tem muita gente por perto e pouco do tipo de contato que procura pode pontuar alto numa escala de solidão sem nenhuma contradição.
O fato de as duas variáveis valerem para os dois grupos também importa. Elas descrevem uma relação entre expectativa e experiência de contato que não é exclusiva de ninguém. Os próprios autores concluem que a subjetividade da solidão percebida e o que ela implica para o suporte social pedem mais estudo.2
Por que "faça mais amigos" não é conselho suficiente
Considere uma situação hipotética. Uma pessoa autista adulta é convidada com frequência, aceita quase sempre e volta de cada encontro exausta, com a impressão de ter passado a noite inteira operando um personagem. No mês seguinte começa a recusar. De fora, a leitura é que "se isolou". Do lado de dentro, o que mudou não foi a vontade de companhia: foi o custo de uma forma específica de convívio.
Esse custo tem nome e já foi descrito: é do que trata o texto sobre camuflagem social, e o verbete sobre masking resume o termo. Há também o caminho inverso, em que a intenção não chega como foi emitida — tema do texto sobre comunicação atípica na vida adulta. E há o caso em que a antecipação do encontro pesa mais que o encontro, que é o que a ansiedade social em autistas adultos descreve, com sobreposição parcial e não total.
Por isso o conselho genérico de ampliar o círculo social erra o alvo com frequência. Ele trata quantidade quando o que está em jogo é ajuste — e, quando não funciona, devolve à pessoa a conclusão de que o problema é ela. Não buscar mais contato pode ser cansaço acumulado, experiência ruim anterior, ausência de espaço onde não seja preciso traduzir-se o tempo todo, ou simplesmente preferência. Nada disso é falha de caráter.
O que costuma ajudar
As linhas abaixo não são tratamento nem receita, e nenhuma delas resolve a questão sozinha. Elas seguem a direção do que a pesquisa descreve: o que se associou à solidão foi a distância entre o contato que se tem e o que se queria ter, e é sobre essa distância que dá para trabalhar.
- Separar as duas perguntas. "Quero mais contato?" e "quero outro tipo de contato?" têm respostas diferentes e levam a decisões diferentes. Começar pela segunda costuma poupar tentativas.
- Descrever o contato que serve. Duração, formato, quantidade de gente, quanto aviso prévio, se tem pauta ou é conversa aberta. Convite genérico cobra decisão na hora; convite descrito permite escolher.
- Contextos com atividade no centro. Interesse compartilhado, trabalho manual, jogo, cuidado de animais — ambientes em que o convívio acontece ao lado de uma tarefa costumam exigir menos improviso conversacional.
- Contato assíncrono conta. Mensagem, texto, comunidade on-line. A pesquisa mede o quanto a pessoa se sente acompanhada, não o número de encontros presenciais.
- Nomear o que se precisa a quem já está perto. Como a insatisfação com o suporte apareceu associada à solidão nos dois grupos, dizer a alguém de confiança que tipo de apoio ajuda é uma via direta, e mais curta do que ampliar o círculo.
- Buscar avaliação quando o mal-estar se instala. Solidão persistente acompanhada de desânimo, perda de interesse, alteração de sono ou de apetite é motivo para procurar ajuda profissional. Psicólogos e médicos são portas de entrada legítimas e independentes entre si, e a primeira consulta serve para organizar a dúvida, não para fechar um rótulo.
Se em algum momento surgirem pensamentos de morte ou de se machucar, há ajuda imediata e gratuita: o CVV atende pelo 188, 24 horas, e o SAMU pelo 192. Procurar esse contato não exige ter certeza de nada.
A página sobre autismo em adultos reúne os demais textos do tema, incluindo os que tratam de diagnóstico tardio, trabalho e vida cotidiana.
Perguntas frequentes
Adultos autistas se sentem mais sozinhos?
No estudo australiano que comparou os dois grupos, os adultos autistas pontuaram significativamente mais alto numa escala de solidão do que os adultos não autistas.2 É uma média de grupo, medida por autorrelato: ela descreve uma tendência no conjunto, não a experiência de cada pessoa. Há adultos autistas que relatam pouca solidão e adultos não autistas que relatam muita.
Querer ficar sozinho é sinal de que algo vai mal?
Não necessariamente. Solidão, na pesquisa, é a diferença entre o contato que se tem e o que se gostaria de ter. Quem prefere passar boa parte do tempo sozinho e está satisfeito assim não está, por definição, em solidão. O sinal a observar é o desconforto com a própria situação, não a quantidade de contato.
Ter mais amigos diminui a solidão?
Nos dados de Mazurek, maior quantidade e maior qualidade de amizades apareceram associadas a menos solidão.1 Mas o mesmo estudo mostrou que a amizade não amorteceu a relação entre solidão e bem-estar, e que o número de amigos teve efeito próprio, independente do da solidão.1 Em resumo: ajuda, e não substitui.
Amizade on-line conta?
As escalas usadas nesses estudos medem o quanto a pessoa se sente próxima e acompanhada, sem exigir que o contato seja presencial. Os estudos citados aqui não compararam diretamente vínculos on-line e presenciais, então não dá para afirmar que um valha mais. O que se mede é a experiência de estar acompanhado.
Quando a solidão vira assunto de consulta?
Quando vem junto de desânimo persistente, perda de interesse pelo que antes importava, alterações de sono ou de apetite, ou quando começa a custar trabalho, estudo e relações. A solidão em si não é diagnóstico — o que se avalia é o quadro em volta dela.
Referências
- Mazurek MO. Loneliness, friendship, and well-being in adults with autism spectrum disorders. Autism. 2014;18(3):223-232. DOI: 10.1177/1362361312474121
- Ee D, Hwang YIJ, Reppermund S, et al. Loneliness in Adults on the Autism Spectrum. Autism in Adulthood. 2019;1(3):182-193. DOI: 10.1089/aut.2018.0038
Este conteúdo é educacional e não substitui consulta médica individual.
Este conteúdo tem caráter informativo e educacional e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento com um profissional de saúde. Em caso de sofrimento intenso ou situação de risco, procure ajuda imediata — CVV 188 (24h, ligação gratuita) ou o serviço de emergência mais próximo.
Revisado pelo autor em

Dr. Diego Tinoco Rodrigues
Médico psiquiatra · CRM-MG 58241 · RQE 37921
Psiquiatra dedicado a TDAH, autismo e saúde mental do adulto, em consultório em Belo Horizonte e por telemedicina.
Sobre o autor

