Atraso de fase do sono em adultos neurodivergentes: o que a pesquisa mede

Quando o sono não está faltando, está deslocado
Há uma diferença entre não conseguir dormir e não conseguir dormir naquela hora. Quem vive a segunda situação costuma receber as recomendações feitas para a primeira, e repetir que elas não funcionam. O padrão, num exemplo hipotético: a pessoa deita às 23h e fica acordada até as 2h; se o dia seguinte estiver livre, dorme até as 10h e acorda descansada. O sono existe, tem duração e qualidade — só não acontece no horário que o trabalho, a faculdade ou a rotina da casa exigem.
Essa configuração tem nome. O DSM-5-TR descreve, entre os transtornos do ritmo circadiano sono-vigília, o tipo de fase atrasada: um horário de sono persistentemente deslocado para mais tarde do que o exigido pelas demandas de trabalho ou de estudo, com dificuldade para iniciar o sono no horário desejado e para acordar na hora necessária. O manual registra que, quando a pessoa pode seguir o próprio horário, o sono tende a ser adequado em duração e em qualidade.5
Em adultos neurodivergentes esse padrão aparece com frequência nos relatos e, em parte da pesquisa, também nos instrumentos de medida. O que segue é o que os estudos encontram — e, em dois pontos importantes, o que eles não encontram.
No TDAH, a evidência é mais consistente
A revisão sistemática mais abrangente sobre o tema reuniu 62 estudos, com um total de 4.462 pacientes com TDAH, para avaliar o que se sabe sobre função circadiana, cronotipo e cronoterapia no transtorno.1 Ela encontra evidência consistente de que o TDAH se associa a cronotipo mais vespertino e a atraso de marcadores de fase circadiana — entre eles o início da secreção de melatonina sob luz fraca e o início do sono.1 Vale dizer de que revisão se trata: ela reúne estudos com crianças e com adultos, sem separar as faixas de idade.1
Para adultos especificamente, um estudo holandês mediu o ritmo de perto. Foram 40 adultos com TDAH — 31 deles relatando insônia de início do sono —, comparados a controles pareados, com diário de sono e actigrafia por uma semana e coleta de melatonina salivar em uma noite.2 Os adultos com TDAH e insônia inicial mostraram início e fim do período de sono deslocados para mais tarde, e início de melatonina atrasado, na comparação com os adultos com TDAH que não relatavam essa insônia.2
O recorte é o detalhe que mais se perde quando o assunto circula: o achado está no subgrupo. Os autores descrevem desvios de ritmo diurno na vida cotidiana da maioria dos adultos com TDAH que têm insônia de início do sono, e encerram sugerindo que os benefícios potenciais de medidas para melhorar o ritmo sejam avaliados — não que já tenham sido demonstrados ali.2 A amostra é pequena e de um único centro. Nada disso autoriza dizer que todo adulto com TDAH tenha o relógio deslocado, nem que o deslocamento seja a causa do TDAH.1 O texto sobre sono no TDAH e no autismo adulto percorre as outras camadas que entram nessa conta.
No autismo adulto, dois estudos e dois achados diferentes
Aqui a literatura é mais fina, e vale apresentá-la como ela está. Um grupo australiano estudou 36 adultos autistas sem deficiência intelectual, com questionários, diário de sono e actigrafia por 14 dias, comparando-os a controles pareados por idade e sexo.3 Uma proporção maior de adultos autistas preencheu critérios para um transtorno do ritmo circadiano sono-vigília do que os controles, e o de fase atrasada foi particularmente comum no grupo autista.3
O mesmo grupo foi medir, em outro estudo, o marcador biológico por trás disso: o início da secreção de melatonina sob luz fraca, em 28 adultos autistas — 16 sem medicação para outros diagnósticos e 12 em uso de medicação por ansiedade e/ou depressão — e 32 controles.4 O horário desse início não diferiu entre os grupos. Adiantamentos e atrasos apareceram em perfis individuais, e não como característica do grupo.4
As duas coisas convivem, e a diferença entre elas é instrutiva. O primeiro estudo mediu comportamento de sono — quando a pessoa efetivamente dormiu e acordou, ao longo de duas semanas. O segundo mediu um marcador fisiológico de fase. E os próprios autores do estudo de comportamento registram que fatores como a situação de trabalho e a coocorrência de ansiedade e depressão parecem influenciar o padrão de sono desses adultos.3 Ou seja: o horário em que alguém dorme não se lê como saída direta do relógio biológico. Em adultos autistas, o que a evidência disponível sustenta é variação individual, e não um perfil único de grupo.4
Por que a recomendação genérica não resolve
"Durma mais cedo" pressupõe que o horário de deitar seja a variável livre. Quando a fase está deslocada, deitar mais cedo adianta o momento de apagar a luz, não o momento em que o sono chega — e o intervalo entre os dois é vivido acordado, muitas vezes com a cabeça em plena atividade. Quem acumula semanas assim costuma dormir até mais tarde quando o fim de semana chega, e aí o horário dos dias livres e o dos dias de trabalho se afastam ainda mais um do outro.
Há um ponto de contexto que a pesquisa registra e que fica fora do quarto. No estudo de comportamento com adultos autistas, a situação de trabalho e a presença de ansiedade e de depressão associadas apareceram entre os fatores que parecem influenciar o padrão de sono.3 Jornada com horário fixo, turno, trabalho noturno, estar sem trabalho, um quadro de ansiedade ou de depressão em curso: cada uma dessas situações muda o que é possível ajustar e o que faz sentido tentar primeiro. Quando o que está em primeiro plano é a ruminação ao deitar, o caminho é outro, e o texto sobre ruminação descreve esse mecanismo. Quando o quarto é a questão — ruído, luz, textura —, vale ler sobre hipersensibilidade sensorial.
A pergunta sobre melatonina aparece sempre, e a resposta honesta é parcial. A revisão sobre TDAH registra que há evidência de que o tratamento com melatonina possa ser eficaz para os problemas de sono relacionados ao transtorno, e acrescenta que, até então, poucos estudos haviam examinado outras abordagens cronoterápicas nesse quadro.1 Do lado do autismo adulto, o estudo de melatonina salivar observou que subidas maiores do hormônio na hora anterior ao sono se associaram a sono mais eficiente nos grupos autistas4 — uma associação medida, que não é o mesmo que indicação de uso; aquele estudo não a sustenta. Se, quando e de que forma qualquer coisa disso cabe em um caso é decisão clínica individual, tomada com quem acompanha a pessoa, e a página sobre medicação psiquiátrica trata do que entra nessa conversa.
O que costuma entrar na conversa
O ponto de partida é distinguir, junto com a pessoa, entre não conseguir dormir e dormir em outro horário — porque o que se tenta nos dois casos é diferente. Alguns recursos que aparecem nessa conversa:
- Registrar antes de mudar. Diário de sono e actigrafia por duas semanas foram justamente os instrumentos com que os estudos citados aqui descreveram padrão de sono em adultos autistas.3 Duas semanas de registro mostram se existe um horário próprio estável ou uma bagunça que varia a cada noite — e são coisas diferentes.
- Separar o horário de deitar do horário de dormir. Anotar os dois, em vez de só o primeiro, torna visível o tamanho do intervalo acordado e evita que ele seja lido como falta de esforço.
- Olhar o entorno antes do relógio. Jornada, turno, ansiedade e depressão associadas entram na avaliação do padrão de sono, não como desculpa, mas porque a pesquisa as encontra ali.3
- Negociar o início da jornada, quando houver essa possibilidade. Horário flexível de entrada, reuniões fora da primeira hora e trabalho remoto em parte da semana são acomodações que mudam o conflito de base. Não dependem de o relógio interno mudar.
- Levar a pergunta sobre cronoterapia e melatonina para a avaliação, sabendo que a evidência é desigual entre os quadros e entre as abordagens.14
Quando o que existe é insônia — dificuldade persistente de iniciar ou manter o sono, com prejuízo diurno —, e não um horário deslocado, há um tratamento de primeira linha com evidência própria, descrito no texto sobre insônia crônica e TCC-I. Os dois quadros podem coexistir, e separá-los é parte do trabalho. A página sobre sono em adultos neurodivergentes reúne o conjunto desses textos.
Perguntas frequentes
Atraso de fase do sono é o mesmo que insônia?
Não. Na insônia, a dificuldade de iniciar ou manter o sono persiste mesmo quando o horário é livre. No atraso de fase, o sono costuma ser adequado em duração e em qualidade quando a pessoa pode seguir o próprio horário, segundo a descrição do DSM-5-TR; o problema é o choque entre esse horário e o exigido pela rotina. Os dois podem coexistir, e a distinção muda o que se tenta.
Dormir tarde é sinal de TDAH ou de autismo?
Não por si só. Dormir tarde tem muitas causas, do turno de trabalho à preferência de horário que uma parte das pessoas tem sem nenhum diagnóstico. A pesquisa descreve associação entre TDAH e cronotipo mais vespertino em grupos de pacientes, não um sinal que identifique alguém individualmente — e a revisão disponível reúne crianças e adultos sem separá-los.
Adultos autistas têm o relógio biológico atrasado?
Como grupo, a evidência não sustenta essa afirmação. Em um estudo de comportamento de sono, uma proporção maior de adultos autistas do que de controles preencheu critérios para transtorno do ritmo circadiano, sobretudo o de fase atrasada; outro, do mesmo grupo de pesquisa, não encontrou diferença média no horário de início da melatonina, com adiantamentos e atrasos aparecendo caso a caso. O que se descreve é variação individual.
Melatonina resolve?
A revisão sobre TDAH registra evidência de que o tratamento com melatonina possa ser eficaz para os problemas de sono relacionados ao transtorno, e nota que outras abordagens de ajuste de ritmo foram pouco estudadas. No autismo adulto, o estudo de melatonina salivar citado aqui não sustenta indicação de uso. Qualquer decisão sobre medicação é individual e se toma na consulta.
Existe exame que mostre se meu ritmo está deslocado?
Em pesquisa, mede-se o início da secreção de melatonina sob luz fraca, com coletas em ambiente de luz controlada. Os estudos aqui citados usaram também diário de sono e actigrafia por uma a duas semanas. A avaliação de um transtorno do ritmo circadiano é clínica e se apoia nesse tipo de registro de horários, não em um exame único.
Mudar o horário aos poucos funciona?
Não há, nas referências deste texto, evidência que permita responder com números. A revisão sobre TDAH é explícita ao dizer que, além da melatonina, poucos estudos até então haviam examinado outras abordagens de ajuste de ritmo nesse quadro. Enquanto isso não muda, a decisão segue sendo clínica e individual.
Referências
- Coogan AN, McGowan NM. A systematic review of circadian function, chronotype and chronotherapy in attention deficit hyperactivity disorder. Atten Defic Hyperact Disord. 2017;9(3):129-147. DOI: 10.1007/s12402-016-0214-5
- Van Veen MM, Kooij JJS, Boonstra AM, Gordijn MCM, Van Someren EJW. Delayed Circadian Rhythm in Adults with Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder and Chronic Sleep-Onset Insomnia. Biol Psychiatry. 2010;67(11):1091-1096. DOI: 10.1016/j.biopsych.2009.12.032
- Baker EK, Richdale AL. Examining the Behavioural Sleep-Wake Rhythm in Adults with Autism Spectrum Disorder and No Comorbid Intellectual Disability. J Autism Dev Disord. 2017;47(4):1207-1222. DOI: 10.1007/s10803-017-3042-3
- Baker EK, Richdale AL, Hazi A, Prendergast LA. Assessing the Dim Light Melatonin Onset in Adults with Autism Spectrum Disorder and No Comorbid Intellectual Disability. J Autism Dev Disord. 2017;47(7):2120-2137. DOI: 10.1007/s10803-017-3122-4
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed., texto revisado. 2022.
Este conteúdo é educacional e não substitui consulta médica individual.
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Revisado pelo autor em

Dr. Diego Tinoco Rodrigues
Médico psiquiatra · CRM-MG 58241 · RQE 37921
Psiquiatra dedicado a TDAH, autismo e saúde mental do adulto, em consultório em Belo Horizonte e por telemedicina.
Sobre o autor

